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terça-feira, 10 de março de 2009

A Índia pode ser viciante.


Momentos de paz...

Não admira que as pessoas se sintam bem por aqui. Isto ainda é relativamente pequeno, tranquilo, seguro e bonito. Pode ser realmente agradável. As pessoas estao de férias, longe das causas de stress e angústia, praticam yoga, fazem umas massagens, conhecem outras pessoas, nem sequer tem de se preocupar muito se estao com uns kilos a mais ou a menos porque as roupas que tendem a usar sao folgadas.... Quem não se sentiria bem assim? Ainda por cima é mais barato estar aqui de férias a praticar yoga, num hotel e a comer em restaurantes do que simplesmente viver a rotina normal em qualquer país da Europa!

Na semana passada mudei-me para um hotelzito chegado à zona de Lakshmanjhula, a segunda ponte, mais a norte. Fica mais perto dos sitios onde estou a fazer aulas de manha e a tarde e é mais divertido, pois é por aqui que ficam a amioria dos turistas. Estava farto do ashram, da comida, dos horarios, dos sinos e mantras que me acordavam todos os dias às 4 da manha! E não se estava a passar lá nada. No fim desta semana volto para lá, para entao retomar os estudos com o segundo Camp, que é o o estudo do Vedanta a partir do texto Rama Guíta.

Daqui a pouco mais de 2 semanas acaba-se a minha primeira viagem a Índia, e aos poucos já estou a ficar com vontade de cá voltar!
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Diversidade na espiritualidade da Índia

Verdade ou verdades?

O que mais gosto na Índia, no “hinduismo”, e em particular no yoga é o facto de não ser uma cultura, e sim muitas. Muitas diferentes, até contraditórias.

No ocidente, e particularmente na Europa, e mais gravemente na Europa mediterranea da qual Portugal é um prolongamento, nós fomos formatados durante muito tempo por uma verdade demasiado... monista. Um Deus, um salvador, uma igreja. Logo, uma verdade. Isso deixou sequelas. As pessoas ficaram formatadas nessa forma de pensamento único, mono. Ficaram marcadas com a ideia de uma verdade absoluta. Uma verdade, só uma, que excluí todas as demais. Com violência se for preciso. Nunca vi as coisas assim. Talvez por que fui exposto desde pequeno a influências muito diversas, talvez porque sou filho de um advogado, e fui estudante de Direito, e por isso sei que a verdade é algo que se discute, que alguém decide, mais ou menos arbitrariamente, por crença, ou por equidade, por interesse... Chamem-me relativista, não me importa. Para mim é quase um elogio. Cada homem tem a sua verdade, em cada momento. E se estamos absolutamente convencidos de algo, entao isso é verdade absoluta, para nós, pois afasta dúvidas e outras possibilidades de verdade. Para nós. Ou seja, a verdade é absoluta não porque seja universal, para todas as pessoas, mas porque é óbvia e evidente para cada um. “A verdade é aquela da qual temos consciência” nas palavras de DeRose. “Tudo está absolutamente certo”, digo eu. Isso para mim sao verdades absolutas.

Voltando ao hinduismo, ás varias culturas que ali co-existem. O facto de haver tanta diversidade cultural chega a ser confuso e dificil para um ocidental que vai a procura de uma verdade ultima e singular. Mas na Índia culturas mais ou menos contraditórias coexistem dentro do próprio hinduismo. E co-existem de uma forma mais ou menos confortável. Porque nao Índia não existe só uma grande igreja dominante, um só papa. O que há sao milhares de seitas cada uma com um ou mais gurus, a maioria delas pequenas, portanto com pouco ou nenhum poder coercivo, e que se vêm obrigados a conviver com as outras 108 seitas e suas verdades. Aqui seita não é algo heretico e perigoso, porque não há um padrao que se imponha como verdade da qual dissidir. Ser diferente é algo comum, e as seitas, desde as micros às um pouco maiores sao a própria estrutura organizacional do hinduismo. Acho isso maravilhoso. Na Índia a verdade revela-se numa grande multiplicidade de formas, e é essa variedade que dá todo aquele colorido que me fascina. Não é uma cultura univoca, antes me abre um oceano de alternativas, possibilidades diferenciadas nas quais me posso perder e reencontrar várias vezes, e em ultimo caso, através das quais me posso perder e encontrar a mim mesmo.

No caso do yoga toda essa diversidade revela-se em todo tipo de pormenores. As praticas recomendadas e realizadas sao do mais diverso, alternativo e até e contraditório. As filosofias que envolvem essas praticas também primam por uma riquíssima variedade. Dentro de uma corrente filosofica há sempre várias correntes discordantes, e sobretudo muitas interpretaçoes diferentes, seja dos textos que lhes servem de fonte, seja na forma de ensiná-los, seja na meta que tudo supostamente tem. Os professores que ensinam (os gurus) sao personalidades dos mais diversos. Há do tipo academico e intlectual e também analfabetos. Há os que vivem numa caverna aos que sao epicentro de um ashram, ou até de todo um movimento religioso, social e politico que move milhoes e milhoes. Desde o que fala muito, ao que permanece em silencio absoluto. Os extremamente bem humorados, e os sisudos e rigidos ao tipo militar. Há os humildes, os que se fazem humildes, e os que não sao humildes, ou pelo menos tentam não se mascarar de humildade! O ambiente natural, cultural e social em que tudo se processa também pode ser diversificadissímo. É muito normal um guru defender que o celibato é a melhor opçao para a evoluçao espiritual, e outro prescrever sexo como parte do caminho espiritual. Um vai exortar uma pratica fisica intensissima que o fará suar abundantemente, outro vai defender que isso é himsa (agressao) e antes deveriamos abandonar todas as praticas fisicas, no seu todo, porque elas vao distrair-nos da contemplaçao do espirito que fica para além das formas. Um professor vai dizer-lhe para concentrar-se no corpo, "open eye meditation frist", outro para sentar-se e cruzar as pernas e simplesmente observar a respiraçao por várias horas por dia, outro vai dizer que é melhor fazer auto estudo enquanto trabalhamos, outro dirá que so meditar no nome de Deus produzirá resultados, outro dirá que tudo isso é demasiado complicado e moroso, é melhor fazer meditaçao instantanea, a meditaçao do riso, "lets fake it until we make it", e outro ainda dirá que qualquer tecnica ou esforço de meditaçao é desnecessário e desaconselhavel porque nós já somos a iluminaçao que procuramos. Mesmo dentro de uma mesma escola de yoga é comum vários professores terem divergência de opinioes, seja quanto à interpretaçao e exposiçao de uma filosofia, seja quanto á execuçao ou ensino de uma técnica, seja quanto à relaçao a estabalecer entre professor e aluno, seja quanto a... tudo! Não é por acaso que dois mestres famosos nunca coincidem no mesmo sitio. Se um discipulo, ou co-discipulo, se destaca invariavelmente sai e vai formar a sua escola, o seu grupo, a sua seita, a sua verdade com mais ou menos variantes quanto a meios e fins. E seja lá qual for o ensinamento todos se dizem perfeitamente defendidos por uma imensidao de textos e gurus, sejam antigos ou modernos. E é muito comum cada guru acrescentarem o seu próprio texto à já muito extensa e rica coleçao que substancia os diversos aspectos do yoga e do hinduismo. Uns sao mais originais e acrescentam algo aparentemente novo, ou reformulado. Outros sao mais comedidos e acrescentam apenas a sua interpretaçao. Seja como for, em todos os lados, gurus e principalmente os seus zelosos seguidores assegurarao que o seu é o único, ou pelo menos o melhor, o verdadeiro caminho para Deus, para a iluminaçao, para a paz e felicidade, e tendem a ficar ansiosos e até beligerantes, ou pelo menos sarcásticos, quando se mencionam pontos de vistas divergentes e concorrentes. Mas é mesmo assim, geralmente não passa disso. Se não gosta dirija-se a outro ashram, a outro guru e pronto. Ou funde o seu...

Tudo isto pode parecer loucura, algo tonto e pitoresco, como se fosse uma espiritualidade sem raizes nem rumo, perdida. Para quem vem a procura de respostas rápidas, certas, confiávíes, para quem tem falta de confiança e procura segurança isto pode ser um inferno. Ou uma soluçao fácil. Mas não é, nem uma coisa nem outra. Para mim é precisamente o ponto forte da Índia, do hinduismo e do yoga é haver várias fontes alternativas, e possibilidades para escolher, para exercer a liberdade, para nos podermos enquadrar conforme as nossas diferenças. É como se a Índia, o hinduismo e o yoga fossem um Uni & verso, que contem a totalidade em si mesmo. Tudo já se especulou, experimentou, e continua a especular-se e experimentar-se continuamente, sem limites.

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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Ajuda a nevegaçao 3

Outra vez...

Tenho estado pouco tempo na internet. Mas escrevo sempre o meu diario de viagem. Assim, que vou publicar menos vezes, mas talvez aos magotes!

Podem ler tudo fazendo scroll na pagina, ou simplesmente aproveitar estes links para clicar e ler na ordem cronologica. Depois basta carregar em "pagina inicial" (ou "home"), no fundo do articulo-pagina, e voltar a pagina inicial.

Rishikesh, os yôgas...

A vida de ashram...

Coisas da Índia: conduzir a apitar


(Ignorem essa coisa que aparece sempre no fim de todos os textos a dizer "Leia o artigo completo CLIC". Essa funcionalidade nao esta a funcionar...)
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Coisas da Índia: conduzir e apitar!


O conceito de higiene, limpeza e poluiçao que temos na Europa não se aplica na Índia. Aqui tudo éende a ser muito mais poluido e sujo. O lixo nas ruas nem em Napoles seria concebivel! Junto ao mau funcionamento do saneamento (se é que existe) pode criar cheiros abjectos nas ruas. A poluiçao visual também é grande, com mil e um anuncios, de todo tipo de coisas, tudo bastante colorido e com pouco cuidado no design. Mas, para mim, a poluiçao que me fere mais, e fere muito, é a poluiçao sonora. Na Índia, como na maioria do países do médio oriente, buzina-se muito! Mmmuuiiiitttttooooo!

Na Europa considera-se falta de educaçao buzinar. Considera-se que quanto menos som produzimos melhor, mais bem educados (excepto música, claro). Na Europa só se buzina para sinalizar uma situaçao limite, perigosa. E se o buzinar é intenso, prolongado ou repetido o mais provavel é que o condutor esteja muito vermelho, zangado, stressado, e prestes a sair do veículo e dissolver o stress com uma bela discussao, que pode chegar a vias de facto! Aqui não. Aqui buzinar é comunicar. É falar. É dizer, estou aqui. Só isso. Eles buzinam muito, mas nem chegam a stressar por isso. Simplesmente continuam nas suas meditaçoes ou conversas, conduzindo caminho adiante. E é bastante normal que um a moto ou rickshaw se adentre por qualquer rua ou recanto, as 4 ou 5 da manha, com aquele barulho infernal que eles fazem so por estar a trabalhar, e ainda apite. Por está lá, existe.

Não há passeios. Os peoes andam na estrada. Na melhor das hipoteses na beira da estrada. Até se for a “auto-estrada”! Aliás, não sao só as pessoas. Também as vacas, caes, macacos, porcos, cabras, bufalos, burros, elefantes se houver... Na Europa os peoes têm prioridade. Aqui ter mota é motivo de orgulho. Por isso não importa se a ponte é estreita e essencialmente pedonal. A motoreta passa a apitar o caminho inteiro. Dói nos ouvidos. Mas para eles é normal! Os carros e rickshaws, assim como autocarros e camioes, não fazem por menos. Em geral vao no meio da estrada. Quando vem outro carro no sentido contrario ambos apontam para o centro, e no ultimo instante ambos se desviam cada um para o seu lado! E sempre a apitar. Não zangados, só a falar, “estou aqui, aqui vou, estou aqui, aqui vou....”.

Como tudo o demais ás vezes cansa. Tanta poluiçao, tanta falta de civismo, para os nossos padroes. Dói até. Mas também tem piada. E, sempre, vale mais rir que chorar. E já estava bastante farto de viajar pelo mesmismo da Europa. Estou contente.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Varanasi

Uma das cidades santas da Índia. Pensa-se que uma das mais antigas. Uma cidade voltada maioritáriamente para o culto a Shiva, o dito Shivaismo.

Varanasi é mais pequena (que Delhi), ou pelo menos a parte mais interessante fica mais concentrada. Por isso é uma cidade ideal para quem quer andar a pé, como eu e a maioria dos viajantes. A maioia do que mais interessa está junto ao rio, O Rio, o Ganges. Ou “a Ganges”, porque o rio é mulher, é criaçao, recriaçao, renascimento, reflorescimento de Vida. A mae Ganges. Por isso tudo tende a confluir para o rio, e o mais tipico, famoso e bonito sao os Gaths, as escadarias que dao acesso ao rio. Lá se processam a maioria dos rituais, e também dos passeios turisticos. Por cima dos gaths está a cidade. Mil um templos, a maioria para Shiva, desde muito pequenos, (tipo: meio metro cubico!) a medianamente grandes. Os Hindus não parecem ser dados a grandes construçoes. Para quê se o maior templo de todos está ali a frente de todos, é o próprio rio! E para fazer os pujas a Shiva basta uma qualquer pedra apontada para cima (simbolo fálico). Se quiser acrescenta-se um animal em frente, como simbolo de Shiva Pashpaputi, o rei dos animais... De todos os aspectos da multifacetada espiritualidade hindu, a que mais me fascina é o sem dúvida o Shivaismo, que na Índia pode assumir mil e uma formas e manisfestaçoes, mas que parece ter certas origens ainda mais ou menos obvias no animismo, no shamanismo, nos cultos da terra, da fertilidade, da guerra, da Natureza, dos ciclos da Vida...

Embora nós ocidentais tomemos o Yôga de uma forma técnica, practica, filosófica, “limpa”, aqui o yôga ganha um certo contexto cultural, e isso é bonito. Shiva também o rei dos yôgis, o simbolo do yôgi perfeito...

Como parece ser tudo na Índia, aqui em Varanasi percebem-se espectacularmente bem algumas contradiçoes absurdas da Vida, e a forma como os indianos parecem viver com isso é o que de mais interessante há para comtemplar.

O rio Ganges, o simbolo maior de criaçao, regeneraçao, renascimento, etc, venerado por milhoes de hindus como se fosse a sua própria mae, é, em termos “ciêntificos”, um rio morto, ou pelo menos envenenado, extremamente poluido. Aqui em Varanasi, já relativamente perto (uns mil Km) do delta onde conflui para o mar, o rio já esta tao poluido que a maioria do ocidentais nao arrisca nem molhar as maos! Diz-se que está 500 vezes masi poluído do que o máximo recomendado para tomar banho! Mas os indianos tomam banho, lavam a roupa, etc. E não é só a sua rotina diária que levam a cabo. É ritual. Vir tomar um banho ao Ganges é considerado purificador. O rio é sagrado. Mesmo que já se esteja morto! Dao um banho ao cadaver, depois quiemam-no, depois lançam os restos no rio. Tudo á vista de toda a gente. Acreditam muitos hindus que isso é um passo positivo para o seu Karma, para reencarnar num ponto mais alto da evoluçao, ou seja, mais perto da iluminaçao que os libertará, em ultima instancia, da própria Vida, esta vida de sofrimentos, condicionalismos, limitaçaoes. Esperam um dia não mais renecarnar, ser Deus. Daqui a muitooooooo teemmmpppooo. Acredito no entanto, que maioria deseja simplesmente reencarnar numa posiçao economico social mais vantajosa...

Se voltar a Índia, e isso parece-me bastante provavel, voltarei sem dúvidas a Varanasi. Gostei mesmo. E nem os pretensiosos ocidentais que se creem mais hindus (e porcos) que os indianos, nem o cheiro a escape da ruas hipercongestionadas por demasiadas motoretas sem catalisador, nem o cheiro a merda por todo lado proveniente de todo tipo de animais (humanos incluidos), nem os pedintes, massagistas, barbeiros, vendedores de flores, passeios de barco, drogas, conductores de rickshaw, estadias em guesthouses, lugares com melhores viistas e visitas a “verdadeiras fabricas de seda milenares”, e mais mil uma porcarias que continuamente nos querem pedir ou impingir estragam a pintura.
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Delhi, real India

Ponho-me a pensar como seria Delhi, a Índia, há 40 , 30, 20 anos... Quase sem automoveis, sem telemóvéis, sem internet. Quando os voos ainda não eram tao acessivéis. Quando os turistas e indianos ainda eram estranhos com curiosidade uns dos outros, à descoberta uns dos outros. Tento imaginar essa Delhi, um pouco menos ruídosa. Suja mas não tao poluída. Cheia e caótica, mas não tao frenética. Nessa altura a Índia deveria ser realmente uma aventura muito especial, tanto que cativou hippies, aventureiros, estudantes e viajantes até hoje.

Hoje, a índia continua a ser especial, com o muito antigo e o absolutamente moderno a conviverem em tao perfeita fusao que não se consegue dizer onde começa um e acaba o outro. Com esta miscegenaçao total de culturas. Com um hinduísmo tao vasto e diversificado em continua regeneraçao. Continua a ser outro mundo para quem sai da acéptica, organizada e segura Europa. Mas concerteza que até há uns 15 ou 20 anos era mais “outro mundo”, mais inacessivel, menos, globalizado na monocultura universal, mais Índia. Não sei..

A maioria dos turistas fica uma ou duas noites em Delhi. Poucos ficam mais. Porque Delhi é ruidosa, suja, poluída, não especialmente bonita, nem em termos paisagisticos naturais nem em termos monumentais. É um ponto de chegada a Índia, e de partida para outras Índias. Vao como eu para Rishikesh para fins especificos, filosóficos, espirituais, esótéricos, culturais e sem lá mais o quê. Ou atrás de um guru, para alguns ashrams noutra parte qualquer do país. Ou vao para sitios mais new age, tipo Goa, Shimla, Puksha, Dargeelling e afins, seja praia, montanha ou deserto. Sitios onde predominam os turistas, as festas, a droga, o engate. E isso não tem mal nenhum, só que se fosse isso que procurasse tambem poderia fazer em casa, ou pelo menos mais perto.

Eu não venho á procura de monumentos, embora não recuse vê-los. Os mais imponentes sao quase todos do periodo de dominio mongol, portanto de cultura predominantemente islamica. Pelo menos nesta area mais ao norte onde tenho andado até agora. Os hindus até têm mais templos um pouco por todo lado mas chegam a ser do tamanho de uma televisao! Mas o que eu quero ver antes de ir para Rishikesh, uma cidade relativamente pequena, considerada cidade santa, cheia de ashrams de yôga e afins, e totalmente invadida por turistas espirituais, o que quero ver antes, dizia, é a real Índia. As gentes, as cidades, o dia-a-dia banal digamos assim. E para isso posso bem ficar em Delhi mais uns dias. Aliás, se quiser voltar, e parece-me que vou querer, esta será sempre a mais provavel porta de entrada, por isso só me convém conhecer quanto mais melhor. Alarguei a minha estadia a 4 noites. Deu-me tempo para ambientar, relaxar e começar a conhecer alguma coisa mais que o centro onde todos os turistas chegam e ficam, em geral o minimo de tempo possivel.

Uma das coisas que fiz foi voltar a Old Delhi. Delhi é o conjunto de várias Delhis construidas pelos diferentes impérios que a dominaram. O actual centro é do periodo inglês, que foi construido para aí colocar a capital da colónia (tirando-a de Calcutá). A parte “velha Delhi” corresponde grosso modo ao periodo de maior apogeu e crescimento da cidade, o de dominio mongol. Old Delhi, é uma enorme zona de ruas estreitas com prédios de mais ou menos 3 ou 4 andares, onde passam alguns carros e muitas motas, mas onde sobretudo há muito transito de pessoas a pé atras dos seus afazeres, essencialmente de comércio. Sao milhares e milhares de pequenas lojas e oficinas a comprar, vender e consertar quase tudo o que se possa imaginar. A zona é algo labirintica. É tipo um bazar gigante. Passadas duas horas mais ou menos a deriva, sozinho, tinha-me perdido totalmente, e ido parar a um lugar muito longinquo do original, onde o boy do rickshaw me esperava de volta. É uma zona tipica, que , exceptuando os carros e motas, não deve ter mudado muito nas ultimas centenas de anos. Milhares (ou milhoes?!) de pessoas vivem e trabalham ali, naqueles meandros sujos poeirentos, poluidos, muitas vezes em casas-loja que não têm mais que 3 ou 4 metros quadrados! Não o creio que exista saneamento básico, pelo menos a funcionar decentemente. E a agua não é potavel, pelo menos para os ocidentais. O cheiro nas ruas é em geral mau. Mistura cheiro a fritos, bosta de vaca, de humanos e de sabe-se lá mais que bicharada, especiarias, oficinas de mecanicos e sobretudo muito tubo de escape. Tudo junto num pó intoxicante. O nariz e garganta sentem isso como uma secura de mau sabor que ao limpar é negra. Dito assim oparece terrivel, e é. Só não é pior porque os indianos sao pobres, por isso aproveitam quase absolutamente tudo! O que eles não aproveitam as vacas, os caes, os macacos e os ratos comem! Reciclagem natural. Concerteza fazem menos lixo que nós coidentais, que consumimos muito mais e onde tudo vem num saquinho de plástico. Enfim...

Old Delhi acabou por ser a parte de Delhi que mais gostei. Porque ali é onde mais vejo a “real and incredible Índia”: caótica, frenética, absolutamente cheia de gente, suja, colorida, com uma grande variedade e misegenaçao cultural...
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Estou na Índia. Chegada e Delhi.

Quando cheguei a Sao Paulo, no Brasil, ia assustado. Ia sozinho, tinha passado o mês anterior a sofrer uma pequena lavagem cerebral de muitos conbhecidos que me “bondosamente” me avisavam de todo tipo de perigos que o Brasil oferecia, do tipo “cortam-te os dedos para te roubar os anéis”. A minha maneira, cheio de descontraçao e estupidez natural, pouco ou nada preparei. É perguiça e desleixo mesmo. E optimismo e excesso de confiança. Em geral acho que tudo vaio correr pelo melhor, e o melhor é ir e logo se vê, tudo se resolve... E resolve mesmo, mas isso tem um preço. E geralmente é bastante fácil de contabilizar, porque é monetário. Quando cheguei a Sao Paulo era Domingo pelo que estava quase tudo fechado. Pelo menos a escola de yôga onde eu ia fazer o estágio profissional estava fechada, assim que não havia possibilidades de orientar-me por lá. Infelizmente tinha-me esquecido da direcçao da casa onde ia ficar. E do numero de telefone! Assim que vi-me atirado para o meio da rua naquela que para mim era, por preconceito, uma cidade infernal! Quando me apercebi da situaçao fiquei com MUITO medo. A minha reacçao ao panico foi simples: olhei em volta, procurei um Hotel com bom aspecto e entrei nele. Felizmente estava num dos melhores bairros da cidade (o que, pelo aspecto, eu não diria) e mesmo em frente a um dos melhores hotéis, um de 5* que eu já nem me lembro o nome. Entrei e pedi um quarto, tomei banho e imediatamente senti-me bem. Baixei ao bar, pedi acesso a internet e logo encontrei on line a dona da casa onde ia ficar. Afinal a casa era na mesma rua do Hotel, a um quarteirao de distância! Menos de dois meses depois tinha percorrido sozinho e a pé muitos Km de ruas más e muito más da cidade, sem grandes receios e sem que se passasse nada.

Ontem de madrugada cheguei a Índia.

Sobre a Índia nunca ouvi grandes histórias de violência. No entanto, sobre Delhi, quase só ouvi coisas do tipo: “é asqueroso”; “é horrivel”; “fiquei um dia e fui logo embora”; “cuidado com os pedintes e pequenos furtos”. Diga-se que a ideia de ficar sem $ e documentos (passaporte) na índia é assustador. A isto juntam-se os mil e um avisos sobre os cuidados a ter com a água, comida, mosquitos e mais um sem fim de doenças tropicais, sazonais, e outras tipicas do mundo mais imundo. MUITO mais imundo. Depois de cerca de 36h acordado, 10h num aeroporto, e uma viagem de 8 horas de aviao, qualquer um sonha com um bom quarto, limpo e seguro, uma cama, uma refeiçao e um bom descanso. Isso pode até tornar-se uma obcessao que atalha quaisquer outros pensamentos e a própria capacidade de pensar racionalmente. Quando cheguei meti-me num taxi em direcçao ao centro. Um velho Ambassador que começou a serpentear pelas estradas de modo frenético comunicando-se alegremente com a buzina a cada 10 segundos com os outros muitos milhares de conductores maniacos que abundam actualmente na Índia. Só me lembrava que o Hotel onde supostamente eu tinha uma reserva era em Connaught Place, que eu imaginei ser o centro, e efectivamente é. Do Hotel nem me lembrava o nome, pelo que disse ao taxista , o mais confiante que consegui, para me levar ao centro, na esperança que ele não topasse que eu não fazia a minima ideia de onde estava e para onde ia. Perguntou-me logo se era a primeira vez na Índia? 2ª disse eu sem hesitaçoes. Parece que deu mais ou menos certo, deixou-me no sitio certo. Não sem antes tentar levar-me várias vezes a aceitar sugestoes e contactos de hoteis para ir. Até me passou para a mao o telefone ligado para eu falar com alguém com quem ele estava em contacto, o que eu recusei com um misto de (pseudo) desinteresse e desprezo. Estava básicamente armado em bom. A esta altura já estava impressionado com o aspecto da cidade. Mesmo com pré-aviso impressiona. Infelizmente não estudei minimamente “O livro” do viajante na Índia (o Lonely planet) que, depois li, avisa para ter cuidado com os muitos agentes de turismo que se anunciam oficiais (“work for goverment, no comissions”), mas que não sao, e que estao prontos para nos “dar” toda a ajuda que precisemos. Depois de 5 segundos (!!!) de sair do taxi já tinha um fulano de aspecto duvidoso a querer levar-me para um “Official Turist Office, right here, come come”. Como 5 segundos foi o que demorei a entender que afinal aquilo que no mapa parecia uma pequena e tipica praça cental de uma cidade era na realidade um gigantesco, caótico, sujo, barulhento, cheio de transito e aparentemente labirintico conjunto de avenidas que realmente fazem uma volta parecida a um circulo, circulo que no mapa parece uma praça central. É central, mas não é bem uma praçazita. Como percebi instantaneamente que jamais iria encontrar um Hotel que eu nem me lembrava o nome, deixei-me rapidamente ceder ao convite deste senhor. Nesta agência de turismo “oficial” (na realidade, oficial mesmo, e recomendavel, só existe uma agência, a que recomenda o LP) fui bem rebecido por uma elegante jovem Sikh que me tranquilizou rapidamente e em 5 minutos me preparou um percurso turistico completo para os 10 dias que eu tenho antes de Rishikesh.

O meu plano era simples: Delhi de passagem, Agra por obrigaçao, para tirar a inevitável foto do Taj Mahal, e só porque está a meio caminho para a mitica Varanasi (antiga Benares), onde ficaria mais uns dias apreciar os Ghats e tudo o mais que houvesse para ver nessa cidade onde domina o culto a Shiva nas margens do Ganges. Mas nao sei como, talvez devido à junçao de cansaço e medo, ou à simpatia e competência deste boy, 10 minutos depois tinha aceite comprar um plano turistico de gama média (ou seja, não ia ficar com os backpackers) passando 3 dias por Jaipur no RaJasthan com direito a passeio em elefante, pelo meio mais outra cidade que nao lembro do nome antes de Agra , depois Agra, só depois Varanasi, e entao comboio para norte directo até Hardiwar, já mesmo ao pé de Rishikesh. Vá lá ainda tive lucidez para recusar um mini safari atrás de Tigres num parque qualquer na zona de Agra! O plano incluia os Hotéis, taxis e rishikaws em todo lado á minha espera e disposiçao, e os bilhetes de comboio. Só teria de pagar extra a alimentaçao e as entradas nos monumentos. E as gorjeta que achasse devidas. Felizmente os meus cartoes Visa não funcionaram direito e só pode pagar parte do total no acto de compra. Isso permitiu-me voltar hoje e renegociar o tour, tirando todo o Jaipur, aumentando um dia aqui em Delhi, e diminuindo a conta a pagar. Ou seja, voltei ao plano original da minha cabeça, embora um pouco mais caro e menos auto-suficiente do que o imaginado. No entanto, verdade se diga, este plano mesmo assim tem um custo aceitável. Se o fizesse eu talvez o fizesse por menos uns 200 euros, mas com muito mais insegurança e sobretudo com muitas perdas de tempo na compra de bilhetes, marcaçoes de hoteis, achar hoteis decentes, etc. Assim vou a muitos mais sitios, muito mais rápido e muito mais seguro. Basta-me dizer ao meu motorista, o Raj, onde quero ir, ou simplesmente aceitar as suas indicaçoes, todas elas préviamente estudadas e que incluem lojas e restaurantes onde não tenho nenhum interesse em ir, mas que lhe dao comissoes a ele, ou pelo menos ao patrao dele.

O Raj, o meu motorista-guia desigando tem 38 anos, é hindu, originário de uma aldeia qualquer no Rajasthan, casado e com 4 filhos. É analfabeto, mas fala, além de Hindi e Rajasthaní, ingês e até umas palavras de japonês. Aprendeu com os turistas. O proximo passo dele, se continuar a acumular bom karma, é comprar o próprio Taxi, que por aqui costumam ser Suzukis, Toyotas ou Tatas, a maioria minusculos e quadradinhos, aqueles utilitários de gama mais baixa que também temos na Europa. Delhi está cheia deste tipo de carros a circular por todo lado, parecendo seguir apenas uma regra básica de transito: não chocar! Mas chocam. O Raj faz rezas e adoraçao (pujas) a Durga em busca de Poder. Secundáriamente também a Ganesh (boa sorte), e a Parvatí (prosperidade). Veja-se como a famosa “espiritualidade hindu” convive harmoniosamente com o mais puro materialismo. É gordinho e simpático. Hoje deu-me uma dica boa de restaurante aqui mesmo ao pé do Hotel Blessings, e sobre como obter bilhetes de comboio sem ser roubado por oportunistas (como os da agência para quem ele trabalha), na estaçao de comboios de Nova Delhi (por distinçao de Old Delhi), a mais importante, também aqui ao lado do meu Hotel. “Don t tell my boss, or will get fired!”. Ok. “Please don t say my name, please don t tell my boss.” Ok, ok. Fez-me logo as perguntas tipicas que qualquer indiano faz a um estrangeiro: Frist time in India? How long wiil you stay? Where do you go? How old are you? Are you married? Have children? Where is your wife? What is your profesion?. Isto sao as perguntas tipicas, quase oficiais, feitas não só para ser simpaticos e meter conversa, não só para saber o quanto podem sacar de nós. Essas perguntas, principalmente as relativas a familia e trabalho, sao as perguntas fundamentais da Vida para um indiano, e fazem-nas por genuina curiosidade. Aliás, sao em geral muito simpaticos, não só por necessidade, mas também por educaçao. É falta de educaçao não responder, e é de bom tom perguntar o mesmo ao inquiridor. Podem até perguntar quanto $ ganhamos, e acham sempre muito estranho sermos casados e não termos filhos.

Ontem, ainda no mesmo dia em que cheguei, depois de um curto sono e banho, o Raj levou-me a South Delhi a ver o “mini” Taj Mahal, anterior e inspirador do de Agra. É também um tumulo muçulmano. E se este é o mini tenho mesmo que ir ver o macro! Depois, ainda no Sul de Delhi fui ver outro monumento qualquer que nem sei bem o que era. Nas realidade ainda estava deslocado, cansado, algo receoso, a adaptar-me ao facto de que estou na Índia! ESTOU NA ÍNDIA!

Hoje de manha (5ª, dia 5) ia sair cedo para explorar a Old Delhi. Comi cuidadosamente o pequeno almoço. Ou seja, comi o pao das sandes de vegetal, e bebi agua mineral devidamente engarrafada ( é a única opçao se exceptuarmos a Coca Cola). 5 minutos depois senti um acesso de vómito! Um minuto depois senti outro. !!! Numa fracçao de segundos revi mentalmente todos os relatos que dizem ser muito comum uma intoxicaçao alimentar acontecer e provocar vomitos, diarreias severas e até desinterias de vários tipos. Coisa para passar uma semana de baixa atrelado a uma sanita! Ao terceiro acesso de vómito não hesitei, e provoquei o vómito sem mais demoras até ter a certeza de que tinha deitado fora absolutamente tudo o que tinha comido. Bebi 1 litro de agua mileral. Descansei um bocado na cama e umas horas depois estava aparentemente bem. Até agora. Deve ter sido só um susto. E que susto!

Old Delhi.

Hoje tinhamos ficado de ir a Old Delhi, a antiga e mais tardicional Delhi. A primeira paragem, a meu pedido, foi uma grande mesquita que ali há. Não sei os nomes, mas esta tudo na internet. Depois foi o Red Fort, que esta mesmo ao lado. Tudo isso faz parte da era muçulmana da Índia que foi a que deixou mais arquitectura em pé até aos nossos dias, mas para falar a verdade não me impressionou muito. Gostei mais de ter andado de bici-rikshaw pela primeira vez. Sim, com um transito absolutamente infernal há volta! Depois, enquanto o gajo que pedala o rikshaw e o Raj esperavam a minha volta, cada um no seu ponto de entrega, aproveitei o facto de estar sozinho para explorar um pouco as reulas de Old Delhi. O Raj não é nada entusiasta de me ver a andar sozinho seja lá por onde for, muito menos nas ruas estreitas, labirinticas e hipercongestionadas de Old Delhi- “If you desapear i lose my job”. !!! Por muito simpático que ele seja eu prefiro não desaparecer pelos meus próprios e óbvios motivos! Antes de me deixar ir no Risksaw disse-me varias vezes “be careful, ok?” Ok, mas estava a começar a sentir-me mais adaptado e relaxado. Estava a começar a desfrutar. E o que me interessa relamente não é ver monumentos e sim “the real Índia”, a vida diária, as ruas onde isso acontece. E onde melhor que Old Delhi? Vi um pequeno grupo de turistas ocidentais e discretamente segui-os. É incrivel como ver turistas ocidentais (menos do que esperava. Ou não ficam muito em Delhi, ou até sao muitos mas no meio de tanto indiano quase nem se vêm) me dá sensaçao de segurança. Ilusória diga-se de passagem. De que raios é que valem 2 ou 3 ocidentais desconhecidos e perdidos no meio de multidoes imensas de indianos em ruas estreiras e labirinticas? É curioso que no Brasil eu passava perfeitamente por mais um, e isso dava-me liberdade, a liberdade de passar discreto. Aqui sou um turista ocidental, sem a menor duvida! Talvez por isso não consegui atrever-me a adentrar muito as ruas de old Delhi sozinho. Uns 200 metros para dentro e senti-me completamente desamparado. Mais 2 ruas e novas tentativas de penetraçao depois voltei atrás contente por este primeiro passo de rebeliao contra os esforços dos meus organizadores de viagem. Disse ao Raj que amanha quero voltar. Ele disse que sim, claro, mas com aquela expressao tipica de quem diz, depois veremos, hei-de levar-te para outro sitio, verás. Rsrsrsrs

De volta ao centro, a New Delhi pois pedi-lhe que me levasse a algum templo de adoraçao a Shiva. Sim, claro, disse ele, mas afinal era um templo de adoraçao a uma dezena de deuses, tudo (mais ou menos) limpinho, bem decorado, cheio de visitantes mais que de peregrinos e devotos.

Como a jeito de compensaçao liberou-me (e a ele próprio) para noite, dando-me indicaçao de uma zona perto e boa (“full of tourist”) para jantar mesmo aqui ao lado do Hotel e ao lado da estaçao. Na realidade é o bairro ende estou, mas eu só tinha visto a minha rua, cheíssima de gente como todas, mas aparentemente não muito frequentada por turistas. Ledo engano, na esquina da rua que dá para a estaçao dei com um mundo hipercolorido, hiperactivo, ao estilo Old Delhi, cheíssimo de lojas de tudo e mais alguma coisa de com muitos hóteis e restaurantes, incluindo uma boa dose deles nitidamente dirigidos ao turista que por aqui sao bem visivéis. É uma especie de sitio para receber e despedir do turistas que vêm a Índia, pois é muito perto do centro e mesmo em frente a estaçao. Estou bem situado afinal de contas. Não que a zona seja “fina”. É suja, barulhenta, cheia de gente e caes vadios, corre-se o risco de ser atropelado a qualquer momento, mesmo ali, numa rua estreira, esburacada, enlameada, mal cheirosa e cheia de movimento a pé! Segura, apesar de se verem bastantes turistas ocidentais, também não deve ser, porque o Raj disse-me “be careful ok?” Ok. Mas é uma zona boa para o turista se hospedar, sair a noite, comer e dormir. Tem ali (aqui) vários sitios recomentados pelO Livro.

Já vi prédios dominados por macacos, e cabras, vacas e elefantes a vaguear no meio da rua. Hoje de manha ao pequeno almoço uma vaca ocupou insistentemente a entrada do restaurante a pedir comida. Ainda não acho normal. Viro-me e páro para ficar a olhar. É outro conceito quanto a organizaçao, higiéne, saneamento, potabilidade, etc. Um Europeu diria que pura e simplesmente não existe cá nada disso. Ainda não acho normal. Gente a dormir no passeio em todo lado, a qualquer hora, inconscientes de toda a poluiçao de todos os tipos, que aqui é o normal. Para mim ainda não. Todos os sitios têm gente na rua. Muita dessa gente não tem casa, vive ali mesmo. Come, dorme, compra e vende, trabalha, caga e tem filhos ali mesmo, no passeio, ou até na própria estrada. Alguns dormem tao despojados no cimento poeirento que parecem mesmo mortos. Ainda não acho normal. Mas agora que já começo a adaptar-me e a relaxar estou a gostar. Não da pobreza. Nem sei bem de quê. Talvez porque que é diferente. Talvez porque eu queria ver algo diferente. Talvez proque eu queria muito vir a Índia. Estou cá . ESTOU NA ÍNDIA. Estou feliz. E o resto logo se vê. Tudo há-se resolver-se e correr pelo melhor!
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Preconceitos 3: Índia X Brasil

Índia X Brasil

(escrito em 2005. Publicado AQUI. Clic.)

Tenho cada vez mais fascínio pelo Brasil e pela Índia.

Nunca fui fisicamente à Índia. Mas conheço muitas pessoas que já lá foram. Algumas várias vezes. Algumas muitas. Outras uma ou duas. Todas com a sua própria perspectiva sobre o país. Como vivo o Yôga, que emana de dentro de uma cultura que se desenvolveu na actual Índia e Paquistão, mantenho-me bastante atento e já estudei bastantes livros sobre Hinduísmo, Yôga, Índia (história e actualidade), etc. Some-se a isso vídeos, programas de TV, filmes, etc. Até já dei um pequeno contributo para uma peça de teatro Hindu! Sou frequentador habitual em restaurantes de comida indiana…Acho que consigo ter uma boa noção!

Também nunca estive no Brasil. Mas qualquer português já é em parte brasileiro! Durante centenas de anos foi o contrário. Mas desde a algumas décadas que a maior contaminação cultural vem de lá para cá. Música, TV, cinema, Carnaval, futebol, publicidade, dentistas, artes, surf, alimentos, imigração, turismo, etc. A Influência é enorme. E cada vez maior.

O meu Mestre é brasileiro. É DeRose. Trabalho com brasileiros, fazendo parte de uma organização que tem génese e liderança no Brasil… Mais de metade das pessoas que conheço (incluindo família) já foram lá pelo menos uma vez. Sinto-me à vontade para falar do Brasil.

É fantástico reparar no facto de esses dois países terem uma influência cultural enorme sobre o que eu faço e sou. E as perspectivas é de terem cada vez mais! Aliás, parece que o impacto desses países no mundo está em franco crescimento, tanto no aspecto económico, como cultural.
A Índia e o Brasil Têm muita coisa parecida.

São ambos países incrivelmente heterogéneos, em todos os aspectos. Tanto nas etnias e respectivas culturas, como geograficamente e também economicamente. Até nas formas de expressão, pois no Brasil o português é bem variado!

O clima é parecido por ser…variado. Quente, frio, desértico, selva, etc. Têm ambos condições férteis para a agricultura, que ainda é a base da sustento de grande parte da população.

Embora ambos sejam considerados países pobres, têm também muita riqueza. E ambas convivem lado a lado, embora sem grandes misturas. São potências económicas e militares cada vez mais omnipresentes. Politicamente são consideradas democracias, ambas com especificidades características e parecidas: estado fraco e pouco regulador que deixa espaço um fluir abrupto e espontâneo das sociedades civis. E isso também é liberdade. Liberdade de criação, para quem sabe e pode! São países com grandes desigualdades sociais que permitem criar dinamismo e crescimento, e injustiças também. Em ambos os Estados há do mais miserável ao lado do melhor e mais avançado que se pode encontrar na humanidade.

O colorido é intenso e o entusiasmo também. Nas comidas, modas, em tudo. Algo que se vive com especial fulgor nas festas, na música, nas artes. Qualquer pretexto é bom para fazer a festa!

Embora a Índia seja a terra das tradições milenares estas assentam primordialmente na capacidade regenerativa. Na absorção de diferenças e recriação permanente. É difícil dizer o que é velho ou novo, pois tudo parece ser as duas coisas! E isso também se vê no Brasil. Convivência próxima do antigo e moderno, do rico e pobre, do belo e do horrível.

Criatividade e esperança são características sempre presentes nesses povos, que ainda assim têm alguma falta de auto-estima, e são os primeiros a recusar o que são os seus próprios valores, subjugando-se tolamente a tudo o que é anglo-saxão!

Não falta diversidade religiosa. Cultos e gurus para todos os gostos. E contra-gurus também. Há desde o intlectualóide do melhor nível ao que nem sabe o que significa votar! Só nesses países é possível eleger filósofos e sindicalistas para presidentes, e ambos fazerem bons trabalhos, essencialmente iguais!

É fácil reconhecer identidades entre certas paisagens da Índia e do Brasil. Tanto de pobrezas, como de belezas.

Enfim, tanta coisa une essas duas partes do mundo.

Outra que as une é a mais importante para mim. É o Yôga. Yôga que significa União!

É o Yôga que me conecta simultaneamente ao Brasil e a Índia. A mim e a muitos outros.
Talvez seja precisamente devido a todas essas identidades que é hoje o Brasil que melhor assegura o perpetuar desta filosofia milenar legada pela Índia. Em nenhum outro país há mais Yôga, tanto em qualidade como em quantidade. É uma diversidade enorme de escolas, mestres, instrutores, linhas, métodos, livros e praticantes, etc. O melhor Yôga do mundo pode ser lá encontrado. As maiores deturpações também. É uma imensidão, desde os melhores profissionais aos totalmente amadores. São múltiplas organizações, cada uma com o seu fim e meios, lutando pelo o Yôga, com o Yôga, e até uns contra aos outros, enquanto concorrência que são! Para quem gosta do Yôga é um fervilhar apaixonante.

Aparentemente esses países continuaram a ser cada vez mais importantes no mundo. Cada vez mais fortes. Cada vez mais exportadores das suas culturas. Especialmente a Índia mais uma vez ressurgida das cinzas parecendo saber aproveitar o legado Inglês.
Veremos.

Espero poder conhecer um pouco mais desses dois mundos de forma mais concreta. Ir lá. Primeiro ao Brasil. Quiçá em breve.

(Os desejos concretizam-se! Mentalizaçao, realizaçao!) Leia o artigo completo CLIC

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Preconceitos 1: Índia, uma invençao moderna


Na mente romantica do ocidental condescendente, os indianos sempre foram um povo muito gentil que aceitaram e integrar as mais diversas culturas que chegaram à sua Índia...Ora, Eles não são assim tão bonzinhos e tolerantes. Mas, de facto, continuam a absorver muito de outras culturas, como sempre.

A “Índia” é uma invenção moderna e ocidental que os próprios indianos estão a tentar assimilar, tentando (com grande ímpeto e dificuldade) criar uma identidade indiana.

Antes de meados do século xx nem existia formalmente tal nação, e ainda agora é dificil manter aqueles ex reinos todos, com a sua hiperdiversidade cultural, juntos e em sã convivência. Tanto que há partes constantemente a lutar por autonomia e independência. O mais engraçado é que muitos indianos abraçaram o nacionalismo com grande impeto, e esse nacionalismo indiano afirma-se primeiramente contra ocidente, contra a Europa, contra os britânicos, contra os judeus...esquecem-se é que o próprio ismo-nacionalismo é algo tipicamente europeu. O nacionalismo foi a grande religião europeia do seculo xix e básicamente implodiu com as duas grandes guerras mundiais no seculo xx. Os indianos (e pakistaneses, cidadãos do bangladesh, etc) ainda estão a reviver os ismos ocidentais do passado. Não é de espantar que os principais actores que promoveram e impulsionaram os movimentos nacionalistas da Índia (e do Pakistan, etc), todos foram educados no ocidente, nomeadamente na Grã-Bretanha.

A Índia moderna vagueia por entre esse anti-europeismo que no entanto continua a fasciná-la. Por exemplo: o dinheiro é cada vez mais o factor predominante na hierarquia social, e não já a casta, seguindo assim o modelo de classes sociais do ocidental. Outro exemplo: a lingua franca é o inglês, e não o hindi ou qualquer outra linguagem, e desde logo não o sânscrito. Os indianos voltaram a valorizar parte da cultura antiga (os textos vêdico-brahmânicos) só depois que os europeus os traduziram e começaram a interessar-se por eles. Caso mais explícito: o Bhagavad –Gíta que após a tradução do sânscrito para o inglês e deste para o hindi passou a ser extremamente popular. O próprio yôga só voltou a ser popular e socialmente importante à medida que mais e mais ocidentais o requisitaram, e sobretudo à medidada que nós os ocidentais rumávamos a oriente levando os bolsos cheios de doláres e depositando-os com veneraçao e submissao aos pés dos gurus. Agora há milhares de gurus, todos prontos a oferecer-lhe yôga prêt-a-porte!
O sistema de ensino tradicional, a tradição oral de mestre-a-discipulo reunidos e pequenas seitas, está a ser definitivamente substituido pelo modelo ocidental resultante da revolução industrial: a educação de massas. A Índia vagueia por entre a tentativa de manter um regime democrático (também um modelo europeu) e pela inveja (medo e admiração) da China com o seu modelo bem sucedido de comunismo capitalista (otros modelos economicos europeus).

Na sua afirmação nacionalista, nessa tentativa de forjar uma identidade indiana, que também se afirma por reacção ao Pakistan e ao seu islamismo (apesar de a Índia ser um dos principais países islamicos do mundo, com muitos de milhoes de muçulmanos), os indianos andam muito atarefados a tentar reconstruir o seu passado, procurando (e encontrando, pois quem procura encontra) as raízes daquilo que seria a sua cultura milenar, o tal de santana dharma, que os estrangeiros deternimaram chamar genericamente de hinduísmo. Acontece que a cultura da Índia pode ser antiga, mas não tem nada de eterna. Ela é a mais diversificada, plural e contraditória que existe. E tem influências de todos os povos que a invadiram (pacificamente, militarmente, comercialmente, culturalmente, etc) e essas influências tão dispares são o que mais carateriza o dito Hinduísmo, que na sua hiperdiversidade é indefinivel e apropriável, até por indianos! "Hinduísmo" é um estrangeirismo. Os ingleses usaram-no como termo genérico para designar aqueles que nao eram muçulmanos ou sikhs. "Hinduísmo" é uma... nao coisa! E essa nao coisa contém mil e uma coisas diferentes. Tantas que os ingleses nem se deram ao trabalho de as nomear. Quando alguém se diz hindu isso nao quer dizer quase nada. É como dizer que sou ocidental. Quanto é que isso diz sobre mim?

Claro que para um indiano activista do orgulho indiano-hindu (de que o Gandhi, um filho cultural do ocidente, foi um dos progenitores) tudo isto é insultuoso e inaceitável.

Para um orgulhoso hindu o que é de louvar é encontrar “provas cientificas” que demonstrem que a sua genética e cultura são “suas” desde há milénios. Que muitos antes de britanicos, portugueses, árabes, mongóis, hunos, gregos e todos os demais, já existia uma grande civilização muito avançada, com os valores da sua cultura “eterna”...blá, blá, blá...

Outra expressão cultural tipicamente europeia que os indianos ainda estão a assimilar é a divisão epistolomógica dos saberes entre ciência x religião x filosofia x arte...É uma divisão típica da Europa moderna, dos seculos xviii a xix, que surgiu aqui por motivos especificos, mas que os europeus exportaram tão bem com o seu dominio militar-comercial. E os indianos continuam a absorver cultura europeia, que utilizam para...tentar renegá-la! Rsrsrsrrs.

E o mais engraçado de tudo é ver ocidentais a colaborar com os nacionalistas hindus, muitos deles radicais e anti-ocidente, nesse esforço por encontrar a autenticidade e superioridade dessa (suposta) cultura.
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domingo, 18 de janeiro de 2009

Conectado, desconectado

Há cerca de 3 anos deixei o telemóvel. Nunca gostei muito de falar ao telefone. Aliás, muito nao, nada. Entretanto, em Portugal outra vez, fiz uma tentativa semi-frustrada de re-adaptaçao. Mas definitivamente prefiro a internet. O mail e o messenger. Para algumas coisas o blog. E hoje em é tao fácil mantermo-nos conectados a internet! Além dos tradicionais cibercafés locutórios que existem em todo lado, a esmagadora maioria das casas que frequento têm conexao de alta velocidade. A maioria de hotéis também. Depois há os restaurantes, cafetarias, aeroportos, etc. com wifi aberto. Basta ter um treminal acessivel. E para isso existem os portáteis. E no último ano surgiram os mais perfeitos de todos os portáteis, os “netbooks”, miniportáteis que pesam menos de 1,5 kg, ás vezes menso de 1 kg, e que sao do tamanho de um livro médio. Ou seja, perfeitamente transportavéis. Nao sao um PC apto para tudo, mas para escrever um texto básico e navegar pela internet sao perfeitos! Assim, agora, o mais dificil é nao estar conectado à Rede! Nao sei se feliz se infelizmente...
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Yôga: ser ou nao ser...

Estilos de yôga: Bikram yoga.

Hoje fui experimentar uma prática nova. Nova para mim...

Actualmente estou num momento de grande abertura e tolerância. Momentaneamente nao estou formalmente conectado a nenhum mestre, método ou instituiçao de yôga. Claro que continuo a ter grande próximidade e referências no Swásthya yôga e sobretudo no Mestre DeRose. Foi aí que comecei, foi aí que cresci para o yôga e como yôgin, é parte essencial da minha formaçao. E quanto mais conheço outros aspectos deste mundinho chamado yôga mais valorizo o Swásthya por tudo de bom que tem, por tudo de bom que aprendi e aprendo, por todas as coisas e pessoas maravilhosas que passaram a fazer parte da minha vida devido ao SwáSthya. E claro, também me apercebo cada vez melhor das suas limitaçoes, tiques, manias, pretensoes, problemas, idiossincrasias e loucuras. Os próprios e aqueles que sao tao comuns neste mundo, e em todas as pessoas e grupos de todos tipos... O yôga é muito humano! Mas isso é outra história.... O certo é que neste momento nao me sinto pressionado a aceitar linguagens, definiçoes, posicionamentos, compromissos, métodos, missoes, objectivos e metas advindos de conveniencias grupais, empresariais e de outras pessoas em geral. E como em todos os momentos de transiçao, em que nos damos a chance de parar para reavaliar e reprender tudo de novo, em que voltamos a deitar as cartas sem medos, prontos a recomeçar o que nunca acabou, podemos ser completamente honestos conosco próprios, incluindo para aceitar o que nao sabemos, as nossas indefiniçoes, o que é diferente, etc. Eu sempre fui curioso, relativamente aberto e tolerante a conviver e conhecer o que há de diferente, a conhecer e “provar” outras coisas, mas neste momento sinto-me mais solto que nunca! Desde logo sinto-me pronto a aceitar que chamem yôga a tudo e mais alguma coisa! Os pretensamente mais ortodoxos sao sempre muito possessivos e ciosos do que consideram “autêntico”, verdadeiro, serio, e, em última análise, seu! Mas convenhamos, os mais ortodoxos costumam ser pretensiosos, uns chatos “pedantes”. Todos com a mania de que a sua verdade é mais verdadeira e importante que a dos demais, cheios de maniazinhas e complicaçoes. Que se... No extremo oposto estao as multiplas empresas que vendem os seus produtos utilizando os esteriotipos, clichés e ideias feitas sobre o yôga sem o menor problema, desde que os seus directores de matketing os convençam que é a melhor forma de publicitar o seu empréstimo bancário, ou o seu colchao pseudo ortopédico, os seus medicamentos infalivéis para as dores de cabeça, o seu pacote de férias idilicas, e por aí vai. Ninguém parece ter problemas em vender o yôga, ou em ganhar $ com o yôga. Ninguém a nao ser alguns pseudo espiritualistas, pseudo anti-materialistas, 99% deles absolutamente hipócritas, egomaniacos em busca de poder, reconhecimento e atençao, desesperados por dinheiro com os quais possam pagar as suas necessidades e vicios, tal como qualquer outros. Ainda abundam tanta gente dessa no mundinho do yôga! Pelo meio desses extremos, os ortodoxos e os que só utilizam a imagem do yôga para vender o seu peixe que nada tem a ver com o yôga há outra categoria. Uma categoria que eu chamaria de “academias de yôga”, que sao aquels locais que vendem o yôga sem grandes ortodoxias e também sem grandes pretensoes, a não ser a de que é yôga. Essencialmente vendem yôga como fitness ou terapia, um fitness terapeutico que se supoe “espiritual” em alguma medida ou forma. Há varias formas e estilos. Variadas embalagens e conteudos. Nos últimos dias aqui em Madrid provei mais um: Bikram Yoga

Bikram Yoga

Para introduçao uma mini história. O dito Bikram é de nacionalidade indiana. Isso da-lhe a oportunidade de chamar yôga ao que bem lhe apetecer! Nao importa se quer chamar yôga a fazer umas posiçoes dentro de uma sauna, ou juntar um grupinho de gente depressiva para rir-se à toa, se se é indiano têm-se a partida uma certa legitimidade para chamar yôga ao que se quiser. Legitimidade perante os próprios indianos porque na Índia ninguém se preocupa muito com isso. Cada um que invente o que bem lhe apetecer. Se for muito excêntrico à partida terá seguidores e provavelmente tornar-se-à um Deus mais. Se ganhar dinheiro e tiver seguidores ocidentais entao melhor ainda... Mas legitimidade também no ocidente porque a maioria dos ocidentais acha que todos os indianos sabem yoga. Como no estrangeiro também acham que em Portugal todos gostamos de fado, o cantamos, tocamos, etc. Pois... Nao gostamos, nao tocamos, nao sabemos. Mas ideias feitas sao poderossisimas, predispoem-nos a crer por preconceito, a confiar! Supostamente o yôga é coisa de indiano, e supostamente so indianso sabem yôga. Mesmo se o indiano for analfabeto, ou tenha passado grande parte da sua vida no ocidente, ou a sonhar com o ocidente e as nossas riquezas, sejam ellas os nossos belos automoveis, as nossas belas e liberais mulheres, ou até o nossos Deus!

Voltando ao Bikram. Este senhor gostava mesmo era de desporto. Incluindo alterofilismo. E parece que algures na sua fase de criança/adolescente teve realmente alguma instruçao na pratica de Hatha yôga, nomeadamente enquanto pratica de educaçao fisica/saude/terapia. Entertanto veio para o ocidente. Por sorte nuam altura em que o ocidente virava a oriente e estava sequioso de yôgas, gurus e outras coisas orientais. E acabou por encontrar a sua formula para “dar certo”. Criou um metodo de yoga, seu! Deu tao ecrto que se pode dizer que estamos perante um dos mais bem sucedidos empresários da area com uma cadeia de franchising bem sucedidda mundialmente (origem nos E.U.A.). Nao só se tornou rico e famoso, ele é um verdadeiro pop star, pelo menos entre os seus séquitos e admiradores. Foi o primeiro a querer registrar comercialmente todo um método de yoga (nao apenas um nome/marca), e há longos anos que organiza competiçoes de yoga. !?! (Ao escrever competiçao de yoga percebo que ainda não sou completamente tolerante e liberal quanto ao que se deveria chamar yoga!).

Bem, indo directo há minha experiencia pessoal.

Começando pelo fim: gostei. Gostei como pratica de tipo desportivo. Algo como um spinning mais interessante e variado.

A sala estava aos seus belos 40 graus (talvez um ou dois mais). Esta é a imagem registrada do método Bikram (pelo menos para um semi-leigo como eu). Estavamos 26 macaquinhos apertados numa sala com não mais de 60 metros quadrados. Só isso já aqueceria mais que suficiente qualquer sala. A professora, com um inconfundivel sotaque norte-americano, não tinha sequer espaço para demonstrar. Não faz mal, os alunos mais antigos a frente dao o exemplo visual. Estavamos pelo menos 8 novatos. Não faz mal, pratica é relativamente simples, essencialmente fisica, facilmente visualizável portanto, e por isso fácil de aprender e seguir. Começamos com 2 minutos de respiraçao simples feita de pé, mas feita da forma mais estranha que já vi. Não percebi bem o porque da forma, nem o objectivo mas concertez que há uma resposta perfeitamente válida . O ar tao quente começou logo a aquecer ainda mais o corpo, e talvez fosse precisamente esse o objectivo. Um ou outro praticante começou logo a sofrer com o calor! A maioria começamos a suar fortemente logo neste ponto. Fomos logo directos ás posturas. 24 creio, cada uma delas repetidas 2 vezes numa sequeência pré definida,. A maioria fácil. Algumas com variaçao avançada para os que têm mais facilidade. Pela 5ª ou 6ªpostura já estava tudo bem suado ao nivel de sauna. Alguns já se deitavam no chao tentando respirar melhor, ou simplesmente não desmaiar e sucumbir. A instructora dizia: “no problema, hacer solamente que puedas. Bueno bueno”. Sinceramente não creio que seja saudável para alguém de caracteristicas marcadamente fogo e ou ar, pessoas naturalmente quentes ou voláteis. Concerteza não é indicado para quem não gosta de suar, ou de ver gente suada. E é impossivel não ver: companheiros a menso de meio metro em qualquer direcçao, espelhso por todo lado. De vez em quando a instructora lá fala um pouco em concentraçao, ou dá um toque de espiritualidade à pratica: “no es fisico, es todo mental, esta todo en la mente (com sotaque amaricannoouu)”. Pois... Para mim não há separaçao, e nem sequer distinçao, entre corpo e mente, mas que neste caso o mental está submergido na sua forma mais densa não tenho dúvidas. Náo é só o meu corpo. O dos meus 25 colegas semi-nus e absolutamente suados a menos de meio metro de mim também ocupam uma parte significativa da minha mente! Por sorte estava rodeado de alguns corpos extremamente agradáveis. A professora diz: "respirar profundo, absorver el prana, la energia en el aire". Espero que o ar condicionado seja realmente mágico, porque prana naquelas condiçoes eu nao consigo imaginar. A certa altura lá nos deitamos em shavasána (deitados de costas no chao, estendidos e imóvéis, a “posiçao do cadáver”) e a instructora diz: “agora imóveis alguns minutos. Simplesmente sinta a sensaçoes. Esta é a parte de meditaçao”. !?!. Para mim meditaçao náo é uma parte. Mas assumindo que pode ser induzida técnicamente numa parte da aula, certamente também não consiste em ficar 2 minutos deitado no chao, absolutamente suado, a tentar desacelarar o coraçao e respirar mais suavemente, “sentindo as sensaçoes do corpo”. Mas tudo bem, não estava ali para me chatear com nada e sim para conhecer algo novo e diferente, desfrutar e até talvez aprender algo novo. E senti-me realizado. Lá terminamos a sequência com mais posturas no chao e pronto, foi isso. 1H30 de actividade fisica agradável em calor intenso. Suei muito. Até me soube bem. Coloco a hipótese de repetir.

Não sei se posso considerar o que fiz yôga. Eu chamo yôga a uma filosofia de Vida, uma filosofia de autoconhecimento que está presente sempre, em qualquer coisa e momento da Vida. Mas que também é enquadrada por uma cultura especifica que no meu caso inclui uma certa linguagem, conceitos, filosofia, praticas e até ritos que advém da tradiçao hindu indiana. Afinal, foi dentro dessa cultura, e como parte dela que o dito yôga como filosofia surgiu e se desenvolveu por milhares de anos. Acho que tal cultura é boa para enquadrar o yôga. E além disso eu gosto dessa cultura, em si mesma, até independentemente do yôga. IE o yôga independe de todas as culturas, mas todas as pessoas tem alguma cultura, pensam, têm estruturas mentais, paradigmas... Assim, se queremos yôga a sério parece útil eleger uma cultura tradicional,com ele relacionado, para do yôga (o meio, o como) podemos extrair o máximo, e contextualizar o que daí se extrai. Isto que fiz, apesar de ter sido concebido por um indiano e de lhe chamarem yoga, para mim, é tanto yoga que uma sessao de spinning. Eu até gostei. Eu gosto de desporto em geral. E gosto, e até preciso, de exercicio dito aéróbico, gosto e preciso de suar. Até gosto bastante de sauna. Assim, este tipo de actividade assenta-me bastante bem. Ainda mais que é um tipo de exercicio bastante mais completo, inteligente e saudável que simplesmente correr ou dar ao pedal. Mas chamar isto de yôga? Não sei. Para mim não. Se o Bikram e alguém mais o quiser fazer tudo bem, que o façam, têm todo direito. Mas eu, apesar da minha actual abertura e tolerancia estarem em nivéis máximos, e os compromissos e atrelamentos a definiçoes comerciais em niveis minimos, ainda prefiro restringir e precisar um pouco aquilo a que chamo yoga. E não é isto. Porque se isto é yôga, porque o yôga está em tudo, é tudo, é a própria Vida a tornar-se consciente de si mesma, é o (um) meio pelo qual essa tomada de consciência se processa, entao deixa de fazer sentido falar em yôga. Porque passa a ser mais um tudo que é nada... E eu ainda não quero chegar aí. Estou perto, mas há que manter algum pé em terreno mais firme e limpido, por mais ilúsória que seja essa firmeza e limpidez. É preciso manter alguma base para a linguagem, o discurso, a comunicaçao, a relaçao... É preciso um pouco de definiçoes e diferenciaçao! É preciso dizer que o yôga é X e nao é Y. O ego existe, é util a si mesmo, faz-se necessário. E o meu ego diz que Bikram e yoga têm algum relacionamento, algum parentesco distante, mas sao coisas diferentes. Como aqueles primos perdidos de terceiro grau de que tomamos conhecimento aleatório de vez em quando, e a que chamamos familia, mas que na pratica nem é...

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Índia, preconceitos...

Porque as viagens tem um antes da partida, principalente as viagens culturais que há muito sao sonhadas e estudadas, os próximos textos serao sobre as minhas impressoes da Índia antes de lá ter ido, os preconceitos. Aquelas impressoes que foram sendo criadas com o estudo dos livros de história e sociologia, dos textso ditos sagrados, de com os contos de viagens narradas em primeira, segunta e terceiras mao. As impreesoes que afloram, tanto por medo como por intuiçao, e que nos fazem ver por imaginaçao.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Índia -Turismo Espiritual

(há uns 3 anos escrevi)

Gostava de ir à Índia.

Sei que aquilo está mais cheio de miséria, crendice, vigaristas e que qualquer outro pais do mundo. Sei que seria mais um ocidental a alimentar essa histeria.

Não iria em busca do Yôga que está em mim. Ou Mestre, que já escolhi. Não iria em busca de iluminação que...

Não iria para praticar, nem para estudar, nem conhecer nada nem ninguém em especial. Sem esperar revelação alguma. Nada que não possa ler em livros e coisas que tais. Talvez um pouco do folclore, cuja cor e o som só ao vivo têm encanto.

Então ir para quê?

Pelo mesmo motivo que o emigrante volta ao seu país. Por nostalgia. Neste caso cultural. Um misto de encontro com as origens e oportunidade de mostrar o sucesso conseguido “lá fora”.

E porque sou curioso. E porque gosto de viajar. E porque queria lá fazer umas compras.

No fundo quero fazer puro turismo. Turismo espiritual.

Hoje o essencial mantém-se. Alguns pormenores teria de mudar. E o que é a vida senão um grande amontoado de pormenores? Mas os desejos tendem a concretizar-se, não sei se feliz se infelizmente. Agora não trocaria esta viagem por nada!
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