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domingo, 8 de março de 2009

Uma visita as quedas de água e um guru inesperado...


Um dia juntei-me a um grupinho que ia ver umas quedas de água no monte, aqui a uns poucos Km a norte de Rishikesh. Quando o grupo se juntou finalmente eram um brasileiro e uma brasileira que já conhecia, um casal de lituanos, um holandês e uma holandesa (que não se conheciam), duas japoneses e eu. E um indiano. Todos conheciamos alguém do grupo, mas quase ninguém conhecia sequer metade do grupo todo. Coisas de viajantes.

As quedas de água em si não têm nada de especial. Sao agradáveis, dá para tomar um banho, tem boas vistas e e tal mas...

O que gostei foi de conhecer o indiano, que se chama a si mesmo Vince! Quando o conheci estava no seu quarto, no mesmo local que o meu amigo brasileiro. A música berrava Eminem! Apareceu de estilo rapper de praia ocidental. All Star e tudo. Primeira coisa que fez foi puxar um cigarrinho do seu paquete de Marlboro. Começou logo a fazer de guia, com trejeitos de playboy engatatao pelo meio. Creio que terá entre 25 e 30 anos, não estou certo. Passado uns dias ia para Madrid, Espanha. Tem uma namorada lá. O que vai lá fazer? Dar aulas de yoga claro! Nos primeiros 5 minutos já estava quase a declarar-lhe mentalmente nojo perpetuo, porque eu tenho a mente aberta e tolerante, mas não tanto. Também tenho os meus preconceitos e dou-me todo direito a tê-los. Naturalmente procurei outras companhias. Infelizmente as japonesas não sao muitas boas para conversar, porque como de costume não falavam grande coisa de inglês, e já estou a ser simpático, porque elas também eram. Os brasileiros e holandeses sao mais acessiveis.

Entretanto, lá em cima nas cataratas, enquanto o pessoal se banhava (eu não me misturo neste tipo de banhos publicos, especialmente com a água tao gelada! rssrsrrs), estava eu na conversa sobre yogas e tal com o Vicent (o Holandês) e o Vince ( o indiano) juntou-se a nós. Eis que o gajo se começa a chibar. Afinal era um ex adepto da ISKCON (vulgos “Hare Krishna”), que tinha sido criado dentro da seita (seita aqui não tem sentido pejorativo, pois todos os grupos “espirituais” sao mais ou menos pequenas seitas...) desde muito pequeno. Foi literalmente adoptado e criado pelo grupo. Os “Hare krishna”, para quem não sabe, sao um grupo devocional criado por um indiano emigrado nos EUA, e que tem como base a devoçao a Krishna, o estudo da Bagvad-guita, com o intuito de iluminar o mundo através da consciência de krishna, blá blá blá. Sao um grupo relativamente grandito e presentes em todo mundo. Até na Índia estao! Um dos Beatles foi durante bastante tempo devoto deles, ou pelo menos colaborou com eles, inclusive com doaçao de parte do testamento. Eles ficaram muito famosos (má fama, diga-se) pela forma extravagante como se apresentavam publicamente no ocidente (cabelo rapado e roupas laranjas) cantando pelas ruas o seu famoso mantra: “Hare Krishna”. Pessoalmente simpatizo com eles. Sao opimos no mantra, e tem sempre um restaurante vegetariano aberto e barato em quase todas as principais cidades do mundo. E dao um colorido ás nossas cidades. Colorido cultural também, diversidade. Claro que esta é a minha visao, de quem vê de fora, de quem só vê o colorido e saboreia a culinária sem compromissos. Assim todos estes pequenos grupos “espirituais” de inspiraçao hindu que abundam tanto no oriente como no ocidente sao bastante divertidos.

Quem pertence aos grupos, os adeptos profissionais, os que vivem para esses grupos e os sustêm, acabam por ter sempre outra visao. Porque o grupo (os “espirituais” como qualquer outro tipo) dá, mas também pede. E em geral pede primeiro, e pede mais do que dá. Em geral é preciso ficar bastante tempo e jogar bem dentro dos grupos (mais que competencia é a lealdade canina e a habilidade nas Relaçoes Publicas que conta) para que o saldo comece a reverter. E para a maioria a compensaçao é simplesmente o orgulho e satisfaçao de pertencer e contribuir para a “obra”. E é de obrar que se trata. Essencialmente suster o grupo envolve trabalho, bastante trabalho. Envolve sentido missionário, compromisso, fidelidade, lealdade, idealismo, conviçao, fé, disciplina, entrega, renuncia, etc. Envolve questoes hierarquicas, com os seus abusos e desvios écticos tipicos. Envolve dinheiro. Tende a envolver amizades e amores, e inimizades e desamores. Envolve TUDO. Envolve tudo isso misturado. Ou seja, tende a ser... absolutista, complicado e pesado. E muitas vezes uma pessoa vê-se embrulhada no meio de tanta hipocrisia, politiquice e problemáticas das mais profanas e corriqueiras que chega um momento em que se pergunta: o que raios faço aqui?! Passado um tempo, de questionamento e duvidas, muitas vezes a resposta a si mesmo é negativa: não acredito nisto; não quero isto; perco o meu precioso tempo. Muitos sentem-se enganados, traidos. E isso gera revolta. E voltam-se contra aquilo que antes tanto amaram e apoiaram. Há uma especie de periodo de nojo, em que se renega tudo, uma especie de vómito de algo estragado e ou mal digerido. As vezes esse vómito deixa uma azia continua, para o resto da vida, como um veneno que ainda está lá.Enfim, como em todas a organizaçoes, há os satisfeitos, mais ou menso satisfeitos, pro mais ou menos tempo, e há os outros. Neste caso, das organizaçoes "espirituais", como envolve um grau elevado de idealismo, em geral tudo se mantém mas sou menso bem se a pessoas ACREDITA. E se as contas sao pagas, claro...

Voltando ao assunto, o Vince, foi precisamente isso que se passou com este micro heroí desta micro história. Ele deixou de acreditar e está em periodo de nojo em relaçao à ISKCON. O fumar entra aí. Não consegue admitir comer carne de vaca (“the cow is my mother”), ainda tem bem presente os ensinamentos mais ou menos tradicionais que lhe inculcaram desde pequeno na seita, está consciente que como professor de yoga está em prevaricaçao (ou seja, vai ensinar o que não faz, como por exemplo não fumar, etc), mas não está muito preocupado. Assume as suas contradiçoes e hipocrisias. Até declara abertamente que só vai dar classes de yoga em Espanha para ganhar dinheiro, o que me fez perceber que não conhece bem a mentalidade dos ocidentais e espanhóies, que não estao preparados para tanto sentido pratico nestas questoes. Mas a mim esta atitude caiu-me muiiittto bem. Afinal, conheço muitos professores de yoga que também não não fazem o que ensinam, mas não têm coragem de admitir, alguns nem para si mesmos. Conheço tantos yogins que andam por aí a querer guiar os demais apesar de estarem tao perfeitamente perdidos como os que pretendem guiar. Pelo menos o Vince esta a começar bem, com Satya, com Verdade para consigo mesmo. E isso é a base de tudo. Actualmente a sua filosofia de Vida é mais ou menos esta: no gurus, no organizations. Just listen to your self, known yourself, trust yourself, make your one decisiones, be your self, right here right now. Your are responsable for your karma anyway... Embora eu não esteja a passar por nenhum periodo de nojo, pois o meu relacionamento com gurus e organizaçoes “espirituais” tem sido em geral positivo, acho que compreendi bastante bem o Vince, porque em parte me identifico. O que ele estava a dizer pareceu-me menos pretensioso, mais corajoso, verdadeiro, realista e importante do que mil e um discursos idealistas, alienados e até surreais que eu tenho ouvido de mil e um gurus um pouco por todo lado. É caso para dizer que afinal aprendeu alguma coisa com o seu ex grupo. Para quem quer aprender, até um pouco de veneno serve...



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terça-feira, 3 de março de 2009

Dia a dia em Rishikesh


O primeiro curso de Vedanta acabou há precisamente uma semana, no outro Domingo. E para o próximo faltam quase duas semanas. Inicialmente tinha previsto aproveitar este descanso de 3 semanas para viajar mais aqui na Índia, a algum sitio no Himalayas, ou lá perto. Tinha pensado em ir a Dharmashala, onde vivem os tibetanos refugiados do Tibete, nomeadamente o Dalai Lama, que fica ainda mais a norte, não muito longe daqui, faz-se a viagem em menos de um dia. Mas entretanto apeteceu-me mais ficar por aqui mesmo, a praticar, a estudar, estável, que está-me a saber bem. A Índia é muito grande. Tem quase tanta coisa para ver como a Europa inteira, é um sub-continente. Por isso não daria nunca para ver tudo. Prefiro ver agora um pouco e assentar a aprender algo a sério aqui. Outra vez verei um pouco mais.

Está-se particularmente bem aqui em Rishikesh, que é pequeno e bastante ao norte. Está a aquecer, mas está seco, o que ajuda. Não vale a pena trazer casacos para cá. Basta uma camisola mais quente, para a madrugada ou alguma noite mais ventosa. Está parecido ao Verao português. Só que o Verao a sério aqui é muito mais quente, e ao mesmo tempo chove. Chove muito, é a epoca das chuvas. Não quero cá vir me Maio ou Junho. Além do calor intenso tornar tudo mais desconfortável, dizem que, junto com a humidade, cria um ambiente propicio a criar todo tipo de virus e bactérias, e por isso também aumenta o perigo de contrair doenças variadas... Como sou calorento já estou a achar quente demais, mas ainda está bastante confortável. Dá até para tomar uns banhos nas praias do Ganga, o que os hindus consideram bastante auspicioso. Só que a água é gelada, não é muito limpa, e ainda por cima não é muito comum ver gente despida nas ruas, mesmo homens, embora homens em tronco nu a tomar banho no rio não seja mal visto. Mas ainda não me estreiei. Amanha vou a umas cachoeiras uns Km rio acima e talvez me aventure por lá...

Entretanto tenho praticado muito. Duas vezes por dia. Uma vez faço eu mesmo a minha pratica, outra vou a algum lado fazer com algum professor. Tenho feito umas praticas bastante intensas e começo a sentir o meu corpo a ganhar vida outra vez. Ás vezes também fico bastante cansado. 3 horas por dia de pratica, em média, mais quase outras tantas a caminhar, cansa. Quando não pratico passeio, vou visitar outro ashram, ou algum tempo, ou leio, ou fico na conversa com alguém. De qualquer forma aqui não acontece absolutamente nada depois das 10 da noite. Aliás, é bastante normal já estar tudo nos quartos, e talvez a dormir, por essa hora. E não há TV! Por isso também se acorda cedo. Ás 4horas da manha (!!!) o ashram ao lado toca para acordar para o primeiro pujá do dia, ás 4h30! Neste ashram o primeiro é as 5h. Não dá para não acordar. Eu tento voltar a dormir e volto a acordar por volta das 6.30, 7...

Aqui no ashram está tudo calmo. A maioria dos cerca das 250 pessoas que estiveram no primeiro curso foi-se embora, a fazer as suas vidas. Outros foram viajar. E outros, como eu, cá estao, a espera do curso seguinte, ainda a praticar e estudar, mas num ritmo mais tranquilo e autonomo.

Descobri que a comida no ashram, quando não está a haver nenhum curso e há menos gente, passa de ser monotona a ser...sempre igual! Já não tomo o pequeno almoço aqui há mais de uma semana. Prefiro comprar sumos e fruta e comê-lo no quarto. No refeitório não servem fruta nehuma, pois é (mais) cara. Só arroz, um guisado à base de batata com lentilhas ou ervilhas, chapata (pao espalmado tipo panqueca) e um caldo picante. Todos os dias. Entre refeiçoes há chai (chá indiano, ou seja, chá com leite). De vez em quando almoço ou janto fora. Por dois euros aqui come-se muito bem num dos muitos restaurantes dirigidos a turistas. Entretanto está a ocorrer um curso de yoga de 2 semanas aqui no ashram, pago e bem pago (cerca de 1500 euros por 2 semanas) no qual estao presentes uns 40 ou 50 europeus, americanos e asiáticos. Embora seja no ashram não é bem uma actividade do ashram, é apenas um curso nas instalaçoes do ashram no qual algum swami dá uma aulita de sanscrito e vedanta. Já tinha reparado que num curso de yoga que houve antes do meu primeiro curso de vedanta que para os praticantes estrangeiros de Hatha yoga (leia-se “yoga essencialmente á base de técnicas corporais”) eles até separam e diferencias as refeiçoes, com o cardápio a ser mais diversificado, rico e nutritivo. Realmente só mesmo um monje renunciante é que é capaz de achar satisfatório viver com aquela raçao diária tao monotona, com tanto hidrato de carbono e com pouco de tudo o resto. Ou entao sou eu que estou mal habituado. Ou bem...

Por cá está tudo bem. Óptimo mesmo. Ás vezes fico com saudades, mas em breve já estou aí outra vez. Ainda mal passou um mês desde que cheguei e parece muito, muito mais.

A minha mae mandou-me uma frase do Miguel Torga bem bonita: “
«transpor as fronteiras uma a uma é morrer sem nenhuma»”. Viajar é bom.
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O Sadhu que viveu 40 anos numa gruta!

Na Índia os gurus (professores e ou mestres) tendem a ser reverenciados. Boa parte dos gurus sao swamis, monges renunciantes, que só por sê-lo tendem a ser considerados homens santos, a quem se respeita, porque sao homens que deixaram tudo o demais para se dedicarem apenas e só a buscar o conhecimento de si mesmos. Destes, alguns swamis, sadhus, sao considerados iluminados. Não há nenhum medidor de iluminaçao objectivo. Como é obvio é tudo bastante subjectivo. Mas alguns destacam-se, ganham fama, sao procurados para ensinarem, aconselharem, etc. O mais comum é que sejam cumprimentados com uma reverencia que consiste em ajoelhar-se, tocar os pés, eventualmente até beijá-los, e cumprimentar com as maos juntas a frente do peito com um namaskara (saudaçao, tipo “bom dia”, ou “bom dia excelentissimo guru”, algo do genero...), mostrando admiraçao, respeito, carinho, submisao, humildade, etc. Para um indiano isso é muito natural. Tao natural que fazem-no com a facilidade com que nós damos um aperto de mao. Mas para ocidental fica menos natural. Especialmente em tempos em que se valoriza tanto o individualismo, o orgulho, a vaidade, o ego. Para mim não é natural e por isso não ccumprimento assim ninguém. Mas na passada terça feira fui com um grupo que conheci conhecer um sadhu que viveu 40 anos numa gruta da montanha aqui em torno ao Ganga em Rishikesh. 40 anos numa gruta!!! O velhinho é magrote, tem cara humilde e ainda por cima estava preso a uma cadeira com uma perna partida. Não tem nenhum ashram, nem estrutura, nem gente a segui-lo e apoiá-lo. De repente, a este tipo até pareceu normal fazer o tradicional cumprimento de tocar os pés...

Chegamos e sentamo-nos a volta dele. Ele estava pronto a responder a qualquer coisa que lhe pedissemos. E o primeiro que quisemos saber foi a história dele...Depois de atender o telemóvel lá nos começou a contar e responder. Sim os sadhus, supostamente renunciaram ao mundo mas a maioria tem telemóvel! Adiante...

Lá ficamos a saber como desde pequeno teve inquietaçoes religiosas, filosóficas, espirituais. A certa altura decidiu abandonar tudo para procurar as respostas ás questoes existenciais que tanto o perseguiam. Essa busca trouxe-o a Rishikesh. Aqui acabou por encontrar um guru que vivia numa montanha e que acabou por se tornar o seu guru. E lá ficou a viver, na mesma gruta. 40 anos! Chegou por volta de 1960, quando Rishikesh já era relativamente famosa pelos yogis e sadhus que a frequentavam e que por aqui viviam. Mas em 1960 ainda quase não havia estradas, nem pontes, nem ashrams. Turistas e mesmo peregrinos indianos eram pouquissímos. Logo não havia hoteis, lojas, etc. Isso só começou 10 e 20 anos depois. Os poucos sadhus e yogis que cá viviam em geral acolhiam-se em grutas ou kutirs (tipo palhotas), ou ao pé do rio, ou algures mais acima já na floresta da montanha. Ainda havia tigres nessa florestas, e ás vezes apareciam no rio para beber agua... Imagine-se o cenário! Entretanto o mundo mudou. Rishikesh mudou. Há várias pontes e barragens norte e sul de Rishikesh. E, absurdo, algum burocráta resolveu declarar que a floresta à volta de Rishikesh, nas montanhas que a cercam, deveria ser declarada reserva protegida. Até aí tudo bem, pois essa floresta está mesmo a desaparecer, e a ser invadida por construçoes ilegais e lixo de vendedores ambulates, etc. Mas alguém tem feito alguma coisa para limpar a montanha, ou pelo menos impedir que fique mais suja? Não. Mas tiveram abrilhante ideia de expulsar todos os sadhus que ali viviam! Em alguns casos viviam ali há decadas. Em alguns casos em grutas habitadas por yogis há séculos! Que grande mal é que estes yogis faziam a montanha? Nenhum. Mas foram expulsos. Um deles foi este velhinho que fomos conhecer. Por sorte dele um hotel junto ao rio acolheu-o. Ele vive lá. E é lá que recebe as suas visitas, de yogis e ou turistas como eu que lá vao para perguntar-lhe coisas sobre o yôga, ou sobre a Vida, sobre Deus ou sobre qualquer coisa. E foi o que o nosso grupo fez. E, claro, no fim deixamos o dakshina (básicamente, o pagamento).

Aqui deixo algumas frases que escutei e gravei...

(atençao que o contexto cultural é outro, e por isso as mesmas palavras não têm necessáriamente o mesmo significado)

Palavras de Swami Shankar Das, um yogi que viveu 40 anos numa gruta!

“Deus é como um espelho: quando nos colocamos diante de Deus vêmo-nos a nós mesmos!”

“Deus conhece todos os nossos pensamentos, e todas as linguagens, e todas sao dispensáveis para comunicar com Deus. Qualquer comunicaçao é entendida por Deus, porque é sempre Deus a falar consigo mesmo.”

“Antes (de ser iluminado) via Deus fora de mim, fora das pessoas. Agora vejo Deus em todas as pessoas. Tudo e todos estao conectados.”

“Yoga é aquele que é capaz de juntar aquilo que parece separado.”

“Yoga significa que ambos somos o mesmo.”

“Ás vezes o yogin vai praticar mas com a motivaçao errada. Quer alcançar um corpo muito bom, ficar cheio de energia, mais concentrado e inteligente, etc. Ás vezes obtém tudo isso. Ou pelo menos convence-se disso. Mas como isso vem do ego e é para o ego, como a atitude é o égoísmo, o yogin não obtém exito (iluminaçao).”

P: É fácil estar estável e "bem" aqui, em Rishikesh, de férias, a praticar yoga, sem pressoes. Mas e como manter este estado numa grande cidade, sob o stress do trabalho, com a poluiçao, etc? "R: Vai para onde for necessário, pratica yoga, estuda e ilumina-se. Entao nao importa onde se vive..."

P: Para quê continuar, qual a sua motivaçao de viver se já encontro Deus que era a meta que tinha na Vida? R: “Ainda tenho desejos. Tenho o desejo de viver mais anos.”

“ Quando o yogi pensa que já se iluminou e não precisa de mais ninguém, que não precisa de mais gurus, que não precisa aprender mais, entao pára. Pára de conhecer. Mas o yoga nunca acaba, nunca deixamos de aprender, mesmo “iluminados””.

“A vida pode ser dificil para quem não a entende, mas é divertida se a conhecemos. É como um drama, um teatro, um filme. E é bom ter papel nesse teatro, mesmo que pequeno.”

Não é preciso ir viver para uma gruta para chegar a esta filosofia de Vida, mas para ele funcionou...







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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Vida de ashram

A traduçao mais facil e comum de ashram é mosteiro. Um local onde vivem e confluem pessoas dedicadas a aprender e ensinar o conhecimento, neste caso o sanscrito, o yoga , o vedanta, os vedas.

Na pratica um ashram costuma ser algo entre um mosteiro e um hotel, e ás vezes é mesmo as duas coisas. O ahram onde estou é basicamente uma instituiçao de ensino, e parece uma especie de campus universitário, embora mais pequeno e ao estilo indiano, ou seja, menos bonito, menos espaçoso, menos bem projectado, menos sofisticado. Mas ainda assim funcional. Os ashrams maiores e mais reputados fazem trabalho social e em alguns casos incluem escola, orfanato, hospital de leprosos ou outra coisa do genero. Não necessariamente esta tudo no mesmo perimetro, até porque o normal é ir crescendo, aos poucos, a medida que surgem fundos, nomeadamente donativos mais generosos que alguns devotos fazem. A maioria tem cantina, ou eventualmente ate restaurante comercial, aberto a qualquer pessoa que pague. Não tenda a imaginar uma igreja enorme com uma ampla estalagem anexa, como costumam ser os mosteiros cristaos. Tudo é mais recente, menos artistico, menos monumental, menos sólido. É tudo mais pratico e funcional, mais modesto, com pouca sofisticaçao, gosto e decoraçao. Outro factor a notar é que neste ashram onde estou, por exemplo, o templo onde se efectuam os rituais religiosos é o edificio mais pequeno de todos. Aliás, tenho reparado que os hindus, embora muito dados a cores garridas e um monte de pirosices, e embora sejam bastante religiosos, não tendem a construir templos muito grandes, pesados e monumentais. Têm é muitos. E os mosteiros é mais ou menos igual. Se você quiser considerar a sua cabana um mosteiro também pode ser. Aliás, a maioria destes ashrams começou dessa forma. Um swami (monge) ganha reputaçao, começa a ter apoios e aos poucos deixa de viver numa gruta ou cabana e começa a construir instalaçoes mais sólidas, que aos poucos vao crescendo. Este ashram onde estou foi mais um dos que começou assim. O monge principal vivia, como muitos outros, num kutir, ou seja, uma cabana, tipo pallhota, aqui mesmo junto ao rio. Mas ganhou fama e apoios, e aos poucos foi construindo um ashram.

O ashram onde estou é enorme. É o Swami Dayananda Ashram de Rishikesh, um dos mais antigos e bem considerados, sobretudo por indianos. Porque aqui o ensinamento ainda é mais tradicional, com muito sanscrito e vedanta. Dos pouco mais de 250 presentes neste primeiro curso, uns 200 sao indianos, a maioria gente mais ou menos endinheirada e de casta alta, e também bastantes swamis visitantes, que aqui estao como eu ou os demais, para aprender da boca do mestre. Alguns já vêm ouvir pela énesima vez. A média de idades deve ser os 50 anos. Talvez mais. A principal lingua falada é o inglês, que serve de lingua franca para todos. Alguns vêm para aprender filosofia, outros para aprender religiao e aprofundar-se na cultura, conhecimentos e rituais tradicionais do hinduismo. Aqui isso está tudo incluído e mais ou menos junto, e cabe a cada um saber pescar só aquilo que quer. Nada é imposto, e não há sectarismo religioso algum. Aliás, os conceitos de religiao e deus de um hindu sao um pouco diferentes dos nosso ocidentais. Por isso o swami ate evita falar de espiritualidade, deus ou religiao, porque sabe que essas palavras tendem a gerar mais equivocos qu eentendimento. Mas também não se pense que, apesar do nivel cultural e economico ser alto (muitos professores, alguns médicos, e tal), e do ensinamento ser essencialmente filosófico, na verdade humanidade é...humanidade. E há muita gente, principalmente indianos, que vêm aqui por questoes puramente religiosas, por crença, para rezar, para cumprir com obrigaçoes rituais e tradicionais, para fazer boa acçao e acumular bom karma, para tentar entender e resolver algum dos seus probleas e sofrimentos, e quiça o swami tenha alguma receita mágica para resolver tudo...

As instalaçaoes deste ashram contêm cerca de 150 quartos, uns de 2 outros de 3 pessoas, com capacidade para cerca de 300 pessoas. Sem luxos, mas um conforto razoavel (para a Índia e para um mosteiro). Além das habitaçoes o mosteiro tem as cantinas, recepçao, templo, livraria e biblioteca, e três salas de estudo, conferencia e ou pratica.

A cantina é exemplar do que é a vida comunitária no ashram. É grande, com várias salas que acessam umas ás outras. Mas tem só algumas poucas mesas de plastico, que se pressupoe estarem ali para as pessoas mais velhas ou com algum problema fisico. A maioria das pessoas come sentada no chao, sobre um fino tapete, de pernas cruzadas, lado a lado com os demais. Come-se num tabuleiro de metal, e bebe-se num copo de metal. Pode-se comer com a mao ou com ajuda de uma colher. Sempre com a mao direita, que os hindus consideram a limpa. Eu ainda não consegui comer à mao... A comida é servida (a horas fixas) directamente das panelas. Servida por voluntarios de entre os participantes no curso aos demais participantes, que vao em fila passando e sendo abastecidos. Não há escolha. Só se pode pedir um pouco mais ou menos, mas a comida é igual para todos. Geralmente é arroz, alguma coisa com batata, algum outro vegetal (ervilhas, por exemplo), um molho qualquer dado a picante e pao. Pao quer dizer: algo parecido a crepe... As vezes tem algo doce, algo parecido a arroz doce, que até pode ser servido e comido junto ao resto! A comida nunca tem alho ou cebola, que sao considerados impuros, sexualmente estimulantes, “rajasicos”, ou seja, criadores de movimento, instabilidade. A comida, embora básica, nem é má. Eu gosto. O problema está em que é assim quase todos os dias, quase igual, 3 x por dia (pequeno almoço incluído), 7 dias por semana! Para quem escolheu vida de monje renunciante e encarou a serio a possibilidade de uma vida errante, sem confortos, esta alimentaçao até deve superar as expectativas. Mas para alguém habituado a uma vida mndana, que está sempre a variar e diversificar, e que come o que quer quando quer isto exige uma certa habituaçao... De qualquer forma também não é nenhum grande sacrificio, e quem quer pode sair e ir comer fora. Depois de comer cada um vai lavar o seu copo e tabuleiro aos lavadores exteriores ao comedor e deposita-os já limpos no respectivo local. Ou seja, não há luxo nenhum, apenas sentido pratico. E se para um ocidental isto pode pecar por alguma falta de conforto e sofisticaçao no serviço ou instalaçoes, para os hindus, muitos deles de casta alta e e bom poder económico, é muito mais siginficativo que tenham de servir a comida e limpar o próprio prato. Não o fariam em casa, mas aqui, para eles, é ritual, é um acto de contricçao e humildade, é uma pequena rendiçao, acumulam bom karma...

Também se espera que cada um tome conta da própria habitaçao, (que em geral é partilhada), nomeadamente no que a limpeza diz respeito. Não há serviço de quarto! Nem sequer lençois! Só o básico: cama, cobertor, luz, W.C....Na realidade as instalaçoes sao muito boas para o padrao de um hotel indiano isto seria quase de 2 ou 3 estrelas. Já não me lembro da ultima vez que lavei roupa a mao! Até há serviço (pago, mas barato) de lavandaria, mas usam agua que talvez seja a do rio, ou pior, sabao pouco, e lavam e secam a roupa a paulada. As vezes vem rota. Mais vale lavar no quarto...

A esta altura é importante dizer algo: tudo isto é gratuito! Os cursos e demais actividades, a estadia no quarto, as refeiçoes... não é pouco. Claro que se pode (e deve) contribuir voluntariamente com algo. Tipo 10 euros (500 a 600 rupias) por dia é uma soma bastante agradável nestas partes, e bastante acessivel para um ocidental. Quer quer dá mais, e há quem dê, e há quem não dê nada... Geralmente à hora da refeiçao menciona-se o nome de alguns patrocinadores mais generosos, quase sempre indianos hindus, para quem tudo isto é tradiçao, religiao e ritual.

O regime não é militar. Está tudo bem organizado, mas nada é imposto. Posso sair quando quiser e só vou as aulas que quiser. Mas vim com o propósito de aprender algo e por isso estou a seguir o curso quase integralmente, neste caso o Camp 1- Vedanta didinmah (“isto proclama o Vedanta”), que dura cerca de 10 dias, 3 aulas de uma hora por dia. Para além disso posso ir a meditaçao guiada as 7. 00, estudar sanscrito de manha e a tarde, e até ir a classe matinal de Hatha yôga (muito suave e terapeutico), ou a classe de musica, e ainda frequentar o sat sanga nocturno (20.30), onde se vocalizam mantras em grupo, e o swami responde a perguntas que qualquer um pode fazer. Para quem quer ainda há os pujas feitos no templo. Não faço tudo. Embora esteja já entrar na rotina do ashram seria demais para mim. Até porque as aulas de Vedanta, só por si, sao bastante intensas, e convem ter algum tempo para reflectir e meditar sobre o assunto. De dois em dois dias, à tarde, saio e vou fazer uma aula de Hatha yôga às 17. 00 com um professor que conheci e estou a gostar bastante. Sao duas horas intensas, da qual (ainda) estou a sair compeltamente esgotado. Também faço a minha própria pratica de yôga todos os dias, uns 45 minutos. E tento ir a meditaçao matinal e aos sat sangas nocturnos que sao bastante bons. As vezes saio com mais alguém no pouco tempo livre que sobra, seja para ir comer fora ou comprar alguma coisa necessária. Ou só para distrair um pouco! Quem quiser pode começar às 4 30 da manha com o primeiro puja no templo, e só acabar às 22 00, depois do sat sanga, quase sem pausas, a nao ser uma pequena depois do almoço, que a maioria aproveita para uma curta sesta.

Os horarios durante este Camp sao assim:

  • 4.30 – puja no templo

  • 7.00 – meditaçao

  • 8.00 - pequeno almoço

  • 9.00 - vedanta dindimah (classe de vedanta)

  • 10.00- yoga, sanscrito, ou musica vedica

  • 11.30- vedanta dindimah (classe de vedanta)

  • 12.30- almoço

  • 16.00- sanscrito, ou musica vedica

  • 17.00- vedanta dindimah (classe de vedanta)

  • 18.30- puja no templo

  • 19.30 – jantar

  • 20.30 – sat sanga

Dentre dos cerca de 70 estrangeiros (media de idades deve ser 35 anos) presentes há-os dos 4 cantos do mundo. Bastantes japoneses,sempre super compenetrados, bastantes brasileiros, portugueses somos 3, australianos há bastantes, embora seja uma comitiva que parece ter caido aqui de paraquedas e estar meio perdida. Acho que a maioria esperava outro tipo de Yôga, mais Hatha Yôga. Mas aqui o Hatha yôga (o yôga mais pratico, mais fisico digamos assim) é considerado meramente um meio, um meio para dar limpeza, saúde, força, vitalidade e disciplina ao corpo e mente, de forma a poder pensar e meditar melhor, de forma a consagrar melhor todos os recursos à cultura, ao estudo, ao conhecimento, ao jñana, ao vedanta... Imagino que vir de um yoga de ginásio directamente para aqui deve ser, no minimo, um choque. Provavelmente uma desilusao. Enquanto para muitos (inclusive para mim) isto é o culminar do ensino do yôga, para outros, vê-se na cara, perguntam-se: o que raios faço eu aqui?

Outra coisa que se pressupoe, e que alguns ocidentais têm dificuldade de entender e respeitar, é que isto é um mosteiro. Um sitio dedicado ao ensino. Um sitio que foi construido por e para Swamis (monjes) celibatários, que resolveram dedicar toda a sua Vida a meditar, a aprender e ensinar o conhecimento vedico, nomeadamente o sanscrito, vedanta e o yoga, e que renunciaram a tudo o demais. Monjes celibatários! Ora, se até para um indiano comum, numa rua comum, ver uma mulher loira e de roupas justas (se mostrar os ombros e as pernas pior. Ou melhor, nem sei) já causa quase o mesmo efeito que na Europa causariam mulheres nuas em praias que não sao de nudistas, imagine-se dentro de um ashram! Aqui pressupoe-se que ninguem vem para desfrutar de uma vida “social”. Assim, e embora o ambiente seja bastante agradável e relaxado, espera-se que as roupas evitem grandes decotes e sejam folgadas, ou pelo menos não evidenciem as formas. Talvez por condicionamento cultural há muita gente vestida de branco, principalmente ocidentais, que tendem ás vezes a ficar mais indianos que os próprios indianos. Até porque os indianos tendem a vestir-se cada vez mais como ocidentais! Mas a verdade é que as roupas tradicionais, nomeadamente os pijamas, sao bonitos e confortáveis. Pelo menos parecem, porque ainda não me converti! Cai bem, ou seja, demonstra respeito, se os cabelos estiverem apanhados, e convem não abusar de perfumes. Abraços, beijos e maos dadas entre homens e mulheres...nao. Nem aqui nem em qualquer local publico indiano. Na india tradicional isso não existe, nem o nosso namoro... Depois de olhares discretos passa-se directo ao casamento! A maioria das mulheres ocidentais sao consideradas...liberais, fáceis, ou até prostitutas! E não sei se eles gostam ou não, acredito que tenham um pouco de inveja nossa. Mas aqui no ashram não. Ninguém recrimina ninguém, já estao habituados a ocidentais, mas espera-se um pouco de pudor. E não custa, é uma questao de respeito.

Enfim, apesar do programa intenso e das demais condicionantes, isto era exactamente o que vinha a procura. Está a superar as minhas expectativas todas, nomeadamente a nivel de qualidade do ensino, e por isso estou contente.

Depois conto mais, sobre os swamis (monjes) e sobre o que mais houver a contar...



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Rishikesh, os yôgas, o ashram, o estudo...


Estou em Rishikesh.

Rishikesh, a cidade dos rishis, os sábios, os que estao conectados a Brahma, ao ilimitado, ao irrestricto, e que dele sao um veículo, que expressa a sua perfeita infinitude e unidade. Hoje, como desde há séculos e séculos, gurus procuram transmitir essa sabedoria (veda) através do parampárá (a tradiçao oral, passada de guru a discipulo). Muitos caminhos, muitos yogas, sao tomados por ainda mais gurus, estudantes e praticantes, seja para se iluminarem seja simplesmente para beneficiarem num ambito mais limitado, por mais contraditório que isso seja.

Rishikesh é uma pequena cidade ás margens do Ganges, ligeiramente a norte de de Haridwar. Haridwar é outra cidade sagrada para os hindus, que até ali peregrinam, e que ali realizam um Maha Kumbha Mela a cada 12 anos (o Grande K M, o maior festival religioso hindu (e do mundo), que junta cerca de 15 milhoes de devotos, acompanhantes, trabalhadores e curiosos, realiza-se alternadamente em cada uma das cidades santas da Índia a cada 12 anos, creio). Rishikesh também é considerada cidade sagrada, mas é mais pequena e menos tradicional para os indianos. Mas está cada vez mais popular e muitos peregrinos hindus, de muitas partes do país afloram a cidade, seja para se banharem no Ganges, que aqui, relativamente perto das suas nascentes, é limpo (menos sujo), seja para orarem nalgum dos templos e lá fazerem os seus pujas, seja para consultar algum guru, seja por tradiçao e curiosidade.

A maioria dos ashrams e escolas, e agora também os hotéis e estalagens, restaurantes e lojas, estao nas duas margens do Ganges que se estendem uns 3 km acima de Rishikesh. Há duas estreitas pontes supostamente pedonais. Mas os indianos metem motas em todo lado e por isso também lá passam motociclos, sempre a apitar como é óbvio. Também se pode atravessar de barco.

Os estrangeiros sao muitos, talvez um terço da populaçao nesta epoca do ano, a epoca alta, quando não esta nem muito frio nem muito calor. Vêm (vimos) quase todos por um motivo: yôga. Alguma forma ou entendimento do yôga. E sao muitos! Diz-se que esta é a “capital mundial do yôga”. O motivo é o numero e credibilidade de ashrams e gurus que aqui floresceu no século passado, e que criou fama. O sitio é de facto propicio, pois é pequeno e calmo, limpo, calmo, fresco, perto dos Himalayas, junto ao sagrado Ganges e de algumas das suas nascentes principais, perto de uma cidade grande e sagrada (Haridwar), ou seja, acessivel e propicio a estabilidade (satwico), a reflexao, a meditaçao. Tinha tudo para dar certo, e deu. Hoje já não é tao idilico, o turismo espiritual esta a massificar-se cada vez mais, mas ainda é extremamente agradável. Depois de Delhi, Agra e Varanasi tive a sensaçao de chegar ao paraíso, finalmente o éden prometido! Os Beatles visitaram o local na década de 70 e popularizaram o que já era um destino preferencial para conhecedores. A partir de aí nunca mais parou de crescer a fama da cidade como “o sitio” eleito por e para yôgins. E aqui há yôga de todas as variadades e para todos os gostos. Tantas que chegam a ser quase impossiveis de reconhecer-se umas nas outras. E isso faz tudo ser ainda mais interessante. É só escolher o que queremos aprender, e com quem. É tipo um parque de diversoes para yôgins...

Se soubermos o que procuramos e tivermos boas referencias é fácil. Alguns sitios sao pagos a hora, sem grandes compromissos e complicaçoes. Outros sao gratis, ou seja, aceitam donativos livres. Estes últimos sao quase sempre os ashrams maiores e mais tradicionais, do tipo religioso, como o que eu estou.

Fico a pensar nos novatos, sem referencias e que vêm aprender do zero, ou pior, do quase nada (o quase nada é o pior estado, porque é mesmo quase nada mas é o suficiente para gerar muitos preconceitos, ideias feitas e pretensoes. Os praticantes mais fanáticos e dogmaticos costumam ser os novatos que sabem quase nada). Quem cai aqui de férias e se entrega à sorte pode ficar totalmente perdido. Há dezenas de anuncios para classes e cursos de yôga. Alguns levam simplesmente ao quintal ou “sala de estar”de um indiano qualquer, que tanto pode ser um yôgi extremamente competente como um charlatao atrás de mulheres ocidentais idealistas, ingénuas e “liberais”. Ainda assim há muita coisa muito boa e séria por aqui, e o sitio é realmente agradável. Nao recomendaria nunca começar a praticar yôga por cá, mas, para quem já sabe o que está a fazer e tem boas directivas e referencias é excelente, seja para fazer cursos mais ou menos prolongados de aperfeiçoamento ou seja simplesmente para fazer umas férias a praticar yôga num lugar com tradiçao.

O primeiro sitio onde fui foi ao ashram onde reinam dois “babas” “iluminados”: uma americana e um brasileiro! É um sitio totalmente ocidentalizado, onde não vi um unico indiano. É feito por e para ocidentais. E os ocidentais conseguem ser muito mais misticos, esotericos, idealistas e alucinados que os indianos! Felizmente os brasileiros também sao genios da música e por isso o Sat sanga (“reuniao em boa companhia”, onde geralmente se vocalizam mantras, se discute ou houve sermao filosofico, e se medita) do baba brasilerio foi bastante agradável. Aliás, não só pela música, mas também pelo sitio que é dos melhores aqui na zona, mesmo por cima duma curva no Ganges, e também pelo sermao que o “baba” deu depois os mantras e antes da meditaçao guiada. Entre umas merdas new age com astrologias e evolucionismo à mistura (“hoje, precisamente hoje, abre-se a porta para uma nova era...”) lá falou da necessidade de quase todos temos de ser “amados em exclusivo”, de como o nosso ego quer sempre receber, mais e mais, mas raramente se predispoe a dar e deixa fluir, e como isso bloqueia tudo e tal... até gostei.

Ainda nesse mesmo dia, a tarde, quando tentava encontrar um professor bastante famoso que queria conhecer mas ninguém parecia saber onde raios está, acabei por ser levado por um casal que encontrei e ia a caminho de outra pratica ali perto. Era de Ashtanga “Vinyasa” yôga, daquele bem ortodoxo e amplamente conhecido. É uma pratica 99% fisica, bastante intensa, só acessivel a quem está numa forma fisica boa ou optima, ou pelo menos quer vir a estar. Sua-se mais que numa sauna. Gostei e entretanto já repeti a dose. Depois conto mais.

Entretanto ontem vim para o ashram. Hoje começou o primeiro curso que cá vou fazer. É de Vedanta. Ou seja, consiste em ouvir o swami (o monge) a explanar sobre Vedanta atraves do estudo de um texto, texto original em sânscrito. Este estudo de Vedanta pode e deve ser acompanhado de meditaçao e se possivel estudo do sânscrito. E a isso se chama Jñana yôga. Depois conto mais.

Em 4 dias já tive 3 experiências de yôga completamente distintas umas das outras. Por acaso no SwáSthya já tinha acesso a todas elas, por isso foi fácil perceber e enquadrar o que vou encontrando, porque embora a linha ou o contexto seja diferente, o SwáSthya dá realmente boas bases, uma base ampla e completa para enquadrar quase tudo que se queira e encontre. Assim as mentes estejam abertas...

Depois de tanta viagem e caminhada, depois de uma semana a conhecer tanta gente, a fazer praticas em diferentes escolas e de tipos tao diversos, eis que entrei no regime do ashram. Este ashram está ainda pegado a cidade de Rishikesh, embora mesmo junto ao rio. Por isso está a cerca de 1 km da primeira ponte e ligeiramente deslocado da maioria do movimento de turistas. É um ashram enorme. Tem cerca de 150 quartos, uns de 2 outros de 3 pessoas, com capacidade para cerca de 300 pessoas. Sem luxos, mas um conforto razoavel (para a Índia e para um mosteiro). Por sorte ou azar, nem sei, (ainda) estou sozinho no quarto, a aproveitar uma privacidade rara nestas circunstancias. Para este primeiro curso estao presentes cerca de 250 pessoas. Mais de metade sao indianos, a maioria do sul da Índia, de castas altas, e que vêm aprender com o Swami Dayananda, que para muitos deles (como para muitos dos ocidentais) é um guru (um professor) e ou um Deus vivo, ao qual sao devotos. Aqui na Índia isso (“ser Deus”) não tem o significado e peso que lhe damos no ocidente. Significa apenas que sabe quem é, e é Brahma. E qualquer um de nós pode e deve procurar esse mesmo conhecimento. Assim, um professor, principalmente se o considerarem iluminado, é objecto de devoçao. E o Dayananda é conhecido em toda a Índia, e em todo mundo, e tem devotos. Nem por isso é guru de massas. Por ano terá alguns milhares de ouvintes em todo mundo, dos quais umas centenas serao estudantes aplicados. Além dele próprio costumam estar presentes uns 20 outros swamis, alguns seus discipulos, alguns residentes do ashram, a maioria homens e indianos, mas também algumas mulheres e ocidentais. Esse outros swamis colaboram nas tarefas de ensino e administraçao do ashram, sendo professores Vedanta, sânscrito, música ou yôga. Alguns já têm mais de 70 anos. Além das habitaçoes o mosteiro tem as cantinas, recepçao, templo, e três salas de estudo e ou pratica. O regime não é militar. Posso sair quando quiser e só vou as aulas que quiser. Mas vim também com o propósito de aprender algo e por isso vou seguir o curso, neste caso o Camp 1- Vedanta didinmah (“isto proclama o Vedanta”), que dura cerca de 10 dias, 3 aulas de uma hora por dia. Para além disso posso ir a meditaçao guiada as 7. 00, estudar sanscrito de manha e a tarde, e até ir a classe matinal de Hatha yôga (muito suave e terapeutico) e ainda frequentar o sat sanga nocturno (8.30), onde se vocalizam mantras em grupo, e o swami responde a perguntas que qualquer um pode fazer. Não vou fazer tudo. Estou cansado, o corpo doi-me das praticas intensivas que fiz antes, não me apetece estar sentado de pernas cruzadas e quieto mais que aquelas 5 horas por dia minimas.

Sinceramente o primeiro dia custou-me um pouco, não obstante o swami seja realmente divertido e genial a passar o ensinamento filosofico. É realmente interessante. É precisamente o que tinha esperança de encontrar. Até supera as minhas expectativas. Mas depois de tanta diversao, depois do regime de férias, de conhecer tanta gente e mover-me tanto, de viajar e passear, das praticas diversas e avulsas feitas quando me apetecia, depois da festa, de repente, entrar em plano de estudo intensivo e estavel num local com horario preenchido, pré-definido, e onde há uma serie de normas de estar básicas a ser em respeitadas, não me pareceu muito divertido. Nem mesmo se estive com gente que já conhecia, conheci mais alguns e falei português pela primeira vez em duas semanas! Acho que é cansaço... Mas hoje estou algo depressivo, com saudades. Saudades de pessoas que conheço e gosto mesmo. Coisas de viajante, coisas da Vida. E vice-versa. Há momentos e momentos...

Até amanha.


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Experiências espirituais


Quem me conhece bem, principalmente quem me conhece a mim e ao meu mundo do yôga bem, sabe que uso o termo espiritual de forma irónica e provocadora. Provocadora para com o meu próprio mundo do yôga, provocadora para mim mesmo, ironica para quem não me conhece assim tao bem, e por isso nem sequer pereceb a ironia.

Não me considero uma pessoa espiritual. Nem não espiritual. Mas o que nao me considero e "espiritualista", alguem obcessionado com essa tal de espiritualidade, seja la o que isso for. O DeRose esta certo. A espiritualidade existe, está aí. É parte da existência, da consciência, da Vida. Como o corpo, ou as emoçoes... Mas ninguém anda por aí a dizer que é “corporal”, ou que vai fazer viagens “corporais”. Quem está sempre a falar do corpo sao as pessoas gordas ou doentes. É o mesmo da “espiritualidade”. Quem fala constantemente nisso é quem está com problemas na area. Senao a “espiritualidade” simplesmente está ali...

Mas no mundo do yoga a maioria das pessoas gosta de se dizer espiritual, que o yôga é espiritual, que a espiritualidade isto e aquilo e aqueloutro. A maioria das vezes nem sequre sei do que estao a falar. Estao a falar de filosofia, de religiao, de pensamento, de intuiçao, de intimidade, de Deus, do “si mesmo”, de tudo, de nada...de quem, de quê? Tenho a certeza de que a maioria das pessoas não faz a minima ideia, porque quando pergunto não conseguem responder.

Mas neste blog, só para chatear, vou também falar de espiritualidade, de viagem espiritual, de yôga como algo espiritual, de eu ser espiritual...é uma mini libertaçao pessoal em relaçao a alguns preconceitos e condicionamentos. Rsrsrsrsrrs

Londres espiritual

Em Londres pratiquei bastante, intensivo mesmo. Muitas vezes duas x por dia, uma hora e meia cada pratica. SwáSthya, geralmente ao fim de tarde, e algo mais pela manha. Como do SwáSthya já estou farto de falar vou falar do resto. Mas continuo a achar que o SwáSthya é a melhor experiência de yôga que já tive até hoje.

Durante 10 dias fui todos os dias ao centro de Jivamukti Yoga em Londres. Além de ficar a 5 minutos a pé de onde estive a morar tinha curiosidade em conhecer proque é uma das escolas actualmente mais famosas. Um franchising em expansao pelo mundo. Tornou-se famoso nos anos 90 quando a escola de NYC (entao a única) acolhia frequentemente gente conhecida do mundo do cinema e música, como Sting, Madona, Shara Jessica Parker e outros. Com essa publicidade e com a explosao de numeros no mundo do yoga ocorrida desde 2000 a escola tornou-se uma empresa, internacionalizou-se, e está hoje presente nas principais capitais mais ricas do mundo. É uma escola de ambiente agradável, em algumas coisas até parecida com o SwáSthya, que organiza workshops regularmente, faz sat sangas, e tem uma prática simples, adaptada e simplificada do Ashtanga “vinyasa” yoga, não seguindo essa pratica a rigor, o que, na minha opiniao é um ponto positivo a mencionar. O promenor que achei mais interessante é que no começo da classe e no fim, durante o relaxamente/descanso em shavásana (não tem yôganidrá) os instructores passam nas costa e depois no pescoço, de uma forma massageante, um creme relaxante (ou estimulante, nem sei bem) daqueles que deixa uma sensaçao intensa de frescura, e sobretudo um cheiro muito agradável. Tendo em conta que a pratica faz suar imenso é um aroma e frescura bem vinda. E quando estamos deitados no fim a relaxar a sensaçao é fantástica. Não tem nada a ver com yôga própriamente dito, mas sabe bem. E uma parte significativa dos (dAs) alunos compram o dito creme á saída da escola... O problema destas escolas, com este tipo de pratica, é que ao fim de 10 dias eu já sabia a pratica dememória, e começou a ser repetitivo. Por um lado é bom, porque dá para ir percebendo a evoluçao masi rápida e claramente. Por outro é extremamente limitado. Mas gostei! E recomendo, pelo menos que experimentem. De qualquer forma, em Londres como em boa parte do mundo, 90% do yôga é Iyengar, Ashtanga “Vinyasa”. Ou uma adaptaçao e mistura desses. Ou Bikram. Ou seja, tende a ser muito repetitivo, muito focado no fisico, e encarado como fitness. Para mim não chega. Mas é bom conhecer... Estou plenamente convencido que o SwáSthya em Londres vai ter muito sucesso. A nível de pratica não tem comparaçao.

Delhi espiritual

Em Delhi só fui visitar uma escola. Fui visitar o Aurobindo Ashram, em south Delhi. Ou seja, o “Delhi branch”, pois o original é perto de Bombay, onde existe quase uma “cidade Aurobindo” chamada Aurobindoville. E existem outras “branch”. Este de Delhi também é enorme. Gigante! Não é uma escola de yôga. É um complexo urbanistico gigante, onde também se pode ir praticar ou estudar yoga. Mais própriamente o yôga ensinado pelo Aurobindo e a “mae” (a sua esposa), e pelos seus díscipulos. E que yôga é esse? É o chamado yôga integral. Integral no sentido do yôga que está em tudo, presente em todo lado, o tempo todo. E sobretudo nos actos mais cotidianos, rotineiros e politicos da Vida! Um dos lemas de Aurobindo e da “mae” era de que “contorçao não é yôga”. Por isso nem se praticava Hatha Yôga tradicional, com os tipicos ásanas. O que se fazia era principalmente tarefas sociais e educacionais, geralmente em grupo, principalmente dirigidas a crianças, o futuro da humanidade. Por isso, a parte menos importante do ashram sao as salas de pratica, essencialmente dedicadas a sat sangas e meditaçao, sendo as poucas (e suaves) classes de Hatha Yôga consideradas uma “concessao a pressoes exteriores”, ou seja, aos estrangeiros que vao visitar e residir no ashram. E esses estrangeiros sao importantes pois me parte sao eles que financiam tudo aquilo. Aliás, em parte sao estrangeiros que gerem também, sobretudo francofonos. O principal é a mega escola que o complexo contém, com jardins, hortas e instalaçoes desportivas incluidas (um luxo no meio de Delhi), e que dá educaçao a centenas (ou milhares, nem sei) de miudos indianos.

Aurobindo, que viveu parte da juventude na Europa, mais própriamente na França, ainda foi responsavel por introduzir o conceito ocidental de evoluçao no yôga moderno, acreditando que a Humanidade está a evoluir em direcçao a auto-consciencia total, uma iluminaçao global. E o Yoga é um meio e um fim nesse processo. O Aurobindo não foi apenas um Jñana Yogin, não foi apenas um lider espiritual, foi também um lider politico, que descobriu o yoga na prisao, quando participou de motins nacionalistas e independentistas nos quais o Gandhi também estev envolvido. Embora seja uma escola algo ocidentalizada, ela foi extremamente importante na Índia, e no yoga mundial, e em Delhi o Aurobindo até dá nome a uma das maiores avenidas da cidade, precisamente aquela onde está instalado o ashram.

Outro aspecto importante foi o protagonismo que “a mae” alcançou. Na realidade era a esposa, francesa, que era a máquina por detrás de tudo o que aconteceu, o Aurobindo quase nem saiu do quarto durante anos, onde se auto enclasurou a meditar e escrever, só saindo para dar o darshan (ser comtemplado), de vez me quando. O facto da esposa ter tanto protagonismo, assim como o facto de ser um yoga integral, que se descobre e revela em todas as coisas comuns e cotidianas fez com que este yoga fosse desde sempre assumidamente tantrico, e isso a certa altura era rompedor de preconceitos...

Quem quiser pode procurar mais nos seus sites, é interessante.

Varanasi espiritual

De Varanasi não tinha nenhuma referencia sobre escolas de yôga. Assim que recorri ao LP. Não é uma grande referencia em termos de yôga, mas é melhor que nada. Apontando a sorte poderia calhar entrar num daqueles centros onde esperam que turistas desavisadAs estejam "open minded" para clases e cursos de yoga "intimo", sexual, e sabe-se la mais o que! A verdade e que aqui na India ainda nao consigo discernir a spessoas e os locais pelo aspecto. Mesmo em casa e dificil, quanto mais aqui. Escolhi a sugestao da “Yoga trainning center” porque o sitio era bastante central e acessivel. Como vim entretanto a descobrir, a escola é dirigida por um professor e sua esposa, que também dao as aulas. Ele (não lembro o nome) que deve ter uns 35 a 40 anos, é encorpado (para um indiano), tem um bom ásana e ri muito, deixando frequentemente a mostra os dois dentres podres e pretos que tem mesmo a frente. Pelo que percebi é relativamente conhecido não só na Índia mas também pela participaçao em eventos internacionais de yôga. Não percebi quem é, ou foi, ou se teve, o seu mestre. Ela (não lembro o nome) deve ter uns 25 a 30 anos, pequena, simpática e boa de ásana também. A escola é essencialmente de Hatha Yoga, dando aulas de varios graus e estilos, e também formaçao a professores. Agora, se me estivessema contar isto eu já estaria a imaginar uma escola toda tradicional, provavelmente grandinha, com salas de pratica equipadas, enfim, uma certa sofisticaçao e tradicionalismo... Nada mais longe da verdade. Na realidade é só um terceiro piso minusculo e imundo de um prédio no meio de uma Varanasi ainda mais suja e congestionada. Teias de aranha por todo lado, pó também claro, de vez em quando vê-se um amacaco, ou um lagarto, ou um rato a passar pelas janelas, a maioria sem...janelas. Besuntar-se com repelente para mosquitos convém. A sala principal, de uns 25 a 30 metros quadrados, tem um “colchao” daqueles de pano redobrado no chao. E não se pense que ali se usam aspiradores. Directamente conectada a essa esta outra sala mais pequena, com de metade do tamanho e com um chao vermelho de uma material que aparente um dia ter sido alguma especie de tatami. Isso é a “escola”. Do lado de fora da sala, nos corredores de acesso ao ar livre deixam-se os sapatos, acessa-se o cubiculo onde se fazem as necessidades (sem lavatorio) e tem-se acesso ao quarto e cozinha da casa dos profs. Isto pode parecer tudo meio ridiculo, e pronuncio de que ali nada de bom pode haver. Mas estamos a falar de Índia, de Varanasi, onde é tudo assim, e as ruas estao ainda mais sujas e degradadas, e cheiram a merda. Por isso está dentro do contexto. Aliás, na Índia nem é o yôga-técnica que procuro, porque isso eu sei que no ocidente há mais e melhor. O que procuro é esse contexto. Quero ver a cultura onde o yoga se desenvolveu, ver o ambiente, os alunos, a forma como os professores de comportam, etc.. Se puder aprender algo de técnica melhor.

Esta escola (como a maioria) é especialmente orientada para ocidentias. Ainda mais sendo recomendada pelo LP! Quando cheguei para informaçoes estavam dois formandos a treinar uma sessao de Reiki! Sim, ali também se dao sessoes e formaçao de Reiki, que aliás etás um pouco por todo lado, sei lá proquê!? Isso sim, assutador... Um desses formandos era um jovem indiano com bom aspecto, e foi o unico aluno indiano que vi. O outro era um jovem austriaco, com aspecto meio hippiezado. Também vi uma terceira formanda, uma jovem venezuelana, que estava sempre muito compenetrada nas praticas. Passavam lá boa parte dos dias, a fazer todas as praticas. Em algum tempo obteriam o diploma de participaçao no “yoga teachers trainning center” e já poderiam chegar a Europa de diploma indiano na mao!

Eu fui primeiro a uma pratica da tarde chamada de "Hatha yoga tradicional", indicada para iniciantes. Estavamos 8. Começou logo com ásanas, feitos numa ordem que me pareceu não obedecer a nenhum critério especial. Mas foi forte, e gostei. Fizemos também alguns pranayamas. Fraquinhos. E depois veio a melhor parte, a meditaçao... Meditaçao do riso! !!! !?!?! Sim, meditaçao do riso, “instantanea”, “very good meditation”, “”let s fake it until you make it”. Eu nem estava a acreditar! Mas lá me ri, mas foi da cara do professor. Inacreditável. Eu sei que isto da “meditaçao do riso” não é novo, tem muitos adeptos, e ali pareceu-me uma coisa a lá OSHO. Mas em estava a acreditar. Foi uma paródia. Mas lá fiz, e ri, e foi divertido. Meditaçao mesmo nada, mas divertido foi. E gostei da aula, resovi voltar na madrugada seguinte para mais uma, supostamente de Ashtanga “Vinyasa” yoga. Voltei, estavamos metade dos do dia anterior, e mais uns 8 novos. Fui para a asalinha de trás, para o grupo do avançados. Os outros fizeram uma pratica do genero da do dia anterior, meditaçao do riso incluida. Nós ficamos com a esposa, que começou a dar-nos forte e feio nos ásanas, alguns repetidos. Não teve quase nada a ver com o conhecido “Ashtanga “Vinyasa” yoga”, mas forte e dinamico foi. Não foi nada de especial, mas até foi bom. Suei imenso, depois fizemos uns paranaymas , depois uma meditaçao esquisita... Ok, nem foi mau.

O melhor foi ver o ambiente. Uma coisa que tinha percebido logo na chegada a Índia, e no caso a esta escola, é que eles sao muito menos ortodoxos que os ocidentais. Eles não têm pudores nehnuns em adaptar, inventar, acrescentar, improvisar e brincar com o yôga. Básicamente fazem o que bem lhes apetece, assim que venda. E como sao indianos é yoga e pronto, ninguém discute. Depois aqueles formandos ocidentais que fizeram o “curso” de professores (básicamente consiste em ir as aulas) vao para a Austria ou Venezuela e ficam todos rigidos e hirtos, ultra ortodoxos, e dizem que tem de ser X e Y porque “eu vi na Índia”, “fiz curso na Índia”. Pois...

Nessa segunda prática conheci uma australiana de aspecto tailandes, e uns americamos e fomos tomar o pequeno almoço. Tinha percebido que a americana, no minimo, já tinha praticado. Em conversa logo nos confessamos, ambos professores de yoga lá na terrinha. Rsrsrsr Acabamos por passar o dia inteiro juntos (os 4) e percebi que ela até tem um percurso bastante comum, parecido com o meu, cheio de ilusoes e desilusoes, periodos de grande envolvimento, entrega e pratica com outros de maior distanciamento e reflexao, etc. Apesar de ser uma judia Nova iorquina temso muitíssimo em comum, e adorei estar a conversa com ela.

Entretanto cheguei a Rishikesh, “capital mundial do yôga”, cheia de ashrams, gurus, “babas”, e praticantes de todo o mundo. Vou ver e depois conto mais.

Estou em Rishikesh! Estou mesmo...
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Casa em Londres



Londres, decerta forma, é a minha rampa de lançamento para a Índia. O Yôga, o SwáSthya, também. A minha casa aqui foi o SwáSthya yôga. A egrégora, com a qual tenho uma relaçao de amor-ódio à minha maneira, mais ou menos civilizada e sóbria. Na casa aqui vivem 3 instrutores, entre os quais o Professor Gustavo Cardoso e sua esposa, a também instrutora Sónia. A todos muito obrigado, foi realmente um prazer partilhar estas duas semanas. Espero ter sido leve.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Yôga: ser ou nao ser...

Estilos de yôga: Bikram yoga.

Hoje fui experimentar uma prática nova. Nova para mim...

Actualmente estou num momento de grande abertura e tolerância. Momentaneamente nao estou formalmente conectado a nenhum mestre, método ou instituiçao de yôga. Claro que continuo a ter grande próximidade e referências no Swásthya yôga e sobretudo no Mestre DeRose. Foi aí que comecei, foi aí que cresci para o yôga e como yôgin, é parte essencial da minha formaçao. E quanto mais conheço outros aspectos deste mundinho chamado yôga mais valorizo o Swásthya por tudo de bom que tem, por tudo de bom que aprendi e aprendo, por todas as coisas e pessoas maravilhosas que passaram a fazer parte da minha vida devido ao SwáSthya. E claro, também me apercebo cada vez melhor das suas limitaçoes, tiques, manias, pretensoes, problemas, idiossincrasias e loucuras. Os próprios e aqueles que sao tao comuns neste mundo, e em todas as pessoas e grupos de todos tipos... O yôga é muito humano! Mas isso é outra história.... O certo é que neste momento nao me sinto pressionado a aceitar linguagens, definiçoes, posicionamentos, compromissos, métodos, missoes, objectivos e metas advindos de conveniencias grupais, empresariais e de outras pessoas em geral. E como em todos os momentos de transiçao, em que nos damos a chance de parar para reavaliar e reprender tudo de novo, em que voltamos a deitar as cartas sem medos, prontos a recomeçar o que nunca acabou, podemos ser completamente honestos conosco próprios, incluindo para aceitar o que nao sabemos, as nossas indefiniçoes, o que é diferente, etc. Eu sempre fui curioso, relativamente aberto e tolerante a conviver e conhecer o que há de diferente, a conhecer e “provar” outras coisas, mas neste momento sinto-me mais solto que nunca! Desde logo sinto-me pronto a aceitar que chamem yôga a tudo e mais alguma coisa! Os pretensamente mais ortodoxos sao sempre muito possessivos e ciosos do que consideram “autêntico”, verdadeiro, serio, e, em última análise, seu! Mas convenhamos, os mais ortodoxos costumam ser pretensiosos, uns chatos “pedantes”. Todos com a mania de que a sua verdade é mais verdadeira e importante que a dos demais, cheios de maniazinhas e complicaçoes. Que se... No extremo oposto estao as multiplas empresas que vendem os seus produtos utilizando os esteriotipos, clichés e ideias feitas sobre o yôga sem o menor problema, desde que os seus directores de matketing os convençam que é a melhor forma de publicitar o seu empréstimo bancário, ou o seu colchao pseudo ortopédico, os seus medicamentos infalivéis para as dores de cabeça, o seu pacote de férias idilicas, e por aí vai. Ninguém parece ter problemas em vender o yôga, ou em ganhar $ com o yôga. Ninguém a nao ser alguns pseudo espiritualistas, pseudo anti-materialistas, 99% deles absolutamente hipócritas, egomaniacos em busca de poder, reconhecimento e atençao, desesperados por dinheiro com os quais possam pagar as suas necessidades e vicios, tal como qualquer outros. Ainda abundam tanta gente dessa no mundinho do yôga! Pelo meio desses extremos, os ortodoxos e os que só utilizam a imagem do yôga para vender o seu peixe que nada tem a ver com o yôga há outra categoria. Uma categoria que eu chamaria de “academias de yôga”, que sao aquels locais que vendem o yôga sem grandes ortodoxias e também sem grandes pretensoes, a não ser a de que é yôga. Essencialmente vendem yôga como fitness ou terapia, um fitness terapeutico que se supoe “espiritual” em alguma medida ou forma. Há varias formas e estilos. Variadas embalagens e conteudos. Nos últimos dias aqui em Madrid provei mais um: Bikram Yoga

Bikram Yoga

Para introduçao uma mini história. O dito Bikram é de nacionalidade indiana. Isso da-lhe a oportunidade de chamar yôga ao que bem lhe apetecer! Nao importa se quer chamar yôga a fazer umas posiçoes dentro de uma sauna, ou juntar um grupinho de gente depressiva para rir-se à toa, se se é indiano têm-se a partida uma certa legitimidade para chamar yôga ao que se quiser. Legitimidade perante os próprios indianos porque na Índia ninguém se preocupa muito com isso. Cada um que invente o que bem lhe apetecer. Se for muito excêntrico à partida terá seguidores e provavelmente tornar-se-à um Deus mais. Se ganhar dinheiro e tiver seguidores ocidentais entao melhor ainda... Mas legitimidade também no ocidente porque a maioria dos ocidentais acha que todos os indianos sabem yoga. Como no estrangeiro também acham que em Portugal todos gostamos de fado, o cantamos, tocamos, etc. Pois... Nao gostamos, nao tocamos, nao sabemos. Mas ideias feitas sao poderossisimas, predispoem-nos a crer por preconceito, a confiar! Supostamente o yôga é coisa de indiano, e supostamente so indianso sabem yôga. Mesmo se o indiano for analfabeto, ou tenha passado grande parte da sua vida no ocidente, ou a sonhar com o ocidente e as nossas riquezas, sejam ellas os nossos belos automoveis, as nossas belas e liberais mulheres, ou até o nossos Deus!

Voltando ao Bikram. Este senhor gostava mesmo era de desporto. Incluindo alterofilismo. E parece que algures na sua fase de criança/adolescente teve realmente alguma instruçao na pratica de Hatha yôga, nomeadamente enquanto pratica de educaçao fisica/saude/terapia. Entertanto veio para o ocidente. Por sorte nuam altura em que o ocidente virava a oriente e estava sequioso de yôgas, gurus e outras coisas orientais. E acabou por encontrar a sua formula para “dar certo”. Criou um metodo de yoga, seu! Deu tao ecrto que se pode dizer que estamos perante um dos mais bem sucedidos empresários da area com uma cadeia de franchising bem sucedidda mundialmente (origem nos E.U.A.). Nao só se tornou rico e famoso, ele é um verdadeiro pop star, pelo menos entre os seus séquitos e admiradores. Foi o primeiro a querer registrar comercialmente todo um método de yoga (nao apenas um nome/marca), e há longos anos que organiza competiçoes de yoga. !?! (Ao escrever competiçao de yoga percebo que ainda não sou completamente tolerante e liberal quanto ao que se deveria chamar yoga!).

Bem, indo directo há minha experiencia pessoal.

Começando pelo fim: gostei. Gostei como pratica de tipo desportivo. Algo como um spinning mais interessante e variado.

A sala estava aos seus belos 40 graus (talvez um ou dois mais). Esta é a imagem registrada do método Bikram (pelo menos para um semi-leigo como eu). Estavamos 26 macaquinhos apertados numa sala com não mais de 60 metros quadrados. Só isso já aqueceria mais que suficiente qualquer sala. A professora, com um inconfundivel sotaque norte-americano, não tinha sequer espaço para demonstrar. Não faz mal, os alunos mais antigos a frente dao o exemplo visual. Estavamos pelo menos 8 novatos. Não faz mal, pratica é relativamente simples, essencialmente fisica, facilmente visualizável portanto, e por isso fácil de aprender e seguir. Começamos com 2 minutos de respiraçao simples feita de pé, mas feita da forma mais estranha que já vi. Não percebi bem o porque da forma, nem o objectivo mas concertez que há uma resposta perfeitamente válida . O ar tao quente começou logo a aquecer ainda mais o corpo, e talvez fosse precisamente esse o objectivo. Um ou outro praticante começou logo a sofrer com o calor! A maioria começamos a suar fortemente logo neste ponto. Fomos logo directos ás posturas. 24 creio, cada uma delas repetidas 2 vezes numa sequeência pré definida,. A maioria fácil. Algumas com variaçao avançada para os que têm mais facilidade. Pela 5ª ou 6ªpostura já estava tudo bem suado ao nivel de sauna. Alguns já se deitavam no chao tentando respirar melhor, ou simplesmente não desmaiar e sucumbir. A instructora dizia: “no problema, hacer solamente que puedas. Bueno bueno”. Sinceramente não creio que seja saudável para alguém de caracteristicas marcadamente fogo e ou ar, pessoas naturalmente quentes ou voláteis. Concerteza não é indicado para quem não gosta de suar, ou de ver gente suada. E é impossivel não ver: companheiros a menso de meio metro em qualquer direcçao, espelhso por todo lado. De vez em quando a instructora lá fala um pouco em concentraçao, ou dá um toque de espiritualidade à pratica: “no es fisico, es todo mental, esta todo en la mente (com sotaque amaricannoouu)”. Pois... Para mim não há separaçao, e nem sequer distinçao, entre corpo e mente, mas que neste caso o mental está submergido na sua forma mais densa não tenho dúvidas. Náo é só o meu corpo. O dos meus 25 colegas semi-nus e absolutamente suados a menos de meio metro de mim também ocupam uma parte significativa da minha mente! Por sorte estava rodeado de alguns corpos extremamente agradáveis. A professora diz: "respirar profundo, absorver el prana, la energia en el aire". Espero que o ar condicionado seja realmente mágico, porque prana naquelas condiçoes eu nao consigo imaginar. A certa altura lá nos deitamos em shavasána (deitados de costas no chao, estendidos e imóvéis, a “posiçao do cadáver”) e a instructora diz: “agora imóveis alguns minutos. Simplesmente sinta a sensaçoes. Esta é a parte de meditaçao”. !?!. Para mim meditaçao náo é uma parte. Mas assumindo que pode ser induzida técnicamente numa parte da aula, certamente também não consiste em ficar 2 minutos deitado no chao, absolutamente suado, a tentar desacelarar o coraçao e respirar mais suavemente, “sentindo as sensaçoes do corpo”. Mas tudo bem, não estava ali para me chatear com nada e sim para conhecer algo novo e diferente, desfrutar e até talvez aprender algo novo. E senti-me realizado. Lá terminamos a sequência com mais posturas no chao e pronto, foi isso. 1H30 de actividade fisica agradável em calor intenso. Suei muito. Até me soube bem. Coloco a hipótese de repetir.

Não sei se posso considerar o que fiz yôga. Eu chamo yôga a uma filosofia de Vida, uma filosofia de autoconhecimento que está presente sempre, em qualquer coisa e momento da Vida. Mas que também é enquadrada por uma cultura especifica que no meu caso inclui uma certa linguagem, conceitos, filosofia, praticas e até ritos que advém da tradiçao hindu indiana. Afinal, foi dentro dessa cultura, e como parte dela que o dito yôga como filosofia surgiu e se desenvolveu por milhares de anos. Acho que tal cultura é boa para enquadrar o yôga. E além disso eu gosto dessa cultura, em si mesma, até independentemente do yôga. IE o yôga independe de todas as culturas, mas todas as pessoas tem alguma cultura, pensam, têm estruturas mentais, paradigmas... Assim, se queremos yôga a sério parece útil eleger uma cultura tradicional,com ele relacionado, para do yôga (o meio, o como) podemos extrair o máximo, e contextualizar o que daí se extrai. Isto que fiz, apesar de ter sido concebido por um indiano e de lhe chamarem yoga, para mim, é tanto yoga que uma sessao de spinning. Eu até gostei. Eu gosto de desporto em geral. E gosto, e até preciso, de exercicio dito aéróbico, gosto e preciso de suar. Até gosto bastante de sauna. Assim, este tipo de actividade assenta-me bastante bem. Ainda mais que é um tipo de exercicio bastante mais completo, inteligente e saudável que simplesmente correr ou dar ao pedal. Mas chamar isto de yôga? Não sei. Para mim não. Se o Bikram e alguém mais o quiser fazer tudo bem, que o façam, têm todo direito. Mas eu, apesar da minha actual abertura e tolerancia estarem em nivéis máximos, e os compromissos e atrelamentos a definiçoes comerciais em niveis minimos, ainda prefiro restringir e precisar um pouco aquilo a que chamo yoga. E não é isto. Porque se isto é yôga, porque o yôga está em tudo, é tudo, é a própria Vida a tornar-se consciente de si mesma, é o (um) meio pelo qual essa tomada de consciência se processa, entao deixa de fazer sentido falar em yôga. Porque passa a ser mais um tudo que é nada... E eu ainda não quero chegar aí. Estou perto, mas há que manter algum pé em terreno mais firme e limpido, por mais ilúsória que seja essa firmeza e limpidez. É preciso manter alguma base para a linguagem, o discurso, a comunicaçao, a relaçao... É preciso um pouco de definiçoes e diferenciaçao! É preciso dizer que o yôga é X e nao é Y. O ego existe, é util a si mesmo, faz-se necessário. E o meu ego diz que Bikram e yoga têm algum relacionamento, algum parentesco distante, mas sao coisas diferentes. Como aqueles primos perdidos de terceiro grau de que tomamos conhecimento aleatório de vez em quando, e a que chamamos familia, mas que na pratica nem é...

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