terça-feira, 10 de março de 2009

Diversidade na espiritualidade da Índia

Verdade ou verdades?

O que mais gosto na Índia, no “hinduismo”, e em particular no yoga é o facto de não ser uma cultura, e sim muitas. Muitas diferentes, até contraditórias.

No ocidente, e particularmente na Europa, e mais gravemente na Europa mediterranea da qual Portugal é um prolongamento, nós fomos formatados durante muito tempo por uma verdade demasiado... monista. Um Deus, um salvador, uma igreja. Logo, uma verdade. Isso deixou sequelas. As pessoas ficaram formatadas nessa forma de pensamento único, mono. Ficaram marcadas com a ideia de uma verdade absoluta. Uma verdade, só uma, que excluí todas as demais. Com violência se for preciso. Nunca vi as coisas assim. Talvez por que fui exposto desde pequeno a influências muito diversas, talvez porque sou filho de um advogado, e fui estudante de Direito, e por isso sei que a verdade é algo que se discute, que alguém decide, mais ou menos arbitrariamente, por crença, ou por equidade, por interesse... Chamem-me relativista, não me importa. Para mim é quase um elogio. Cada homem tem a sua verdade, em cada momento. E se estamos absolutamente convencidos de algo, entao isso é verdade absoluta, para nós, pois afasta dúvidas e outras possibilidades de verdade. Para nós. Ou seja, a verdade é absoluta não porque seja universal, para todas as pessoas, mas porque é óbvia e evidente para cada um. “A verdade é aquela da qual temos consciência” nas palavras de DeRose. “Tudo está absolutamente certo”, digo eu. Isso para mim sao verdades absolutas.

Voltando ao hinduismo, ás varias culturas que ali co-existem. O facto de haver tanta diversidade cultural chega a ser confuso e dificil para um ocidental que vai a procura de uma verdade ultima e singular. Mas na Índia culturas mais ou menos contraditórias coexistem dentro do próprio hinduismo. E co-existem de uma forma mais ou menos confortável. Porque nao Índia não existe só uma grande igreja dominante, um só papa. O que há sao milhares de seitas cada uma com um ou mais gurus, a maioria delas pequenas, portanto com pouco ou nenhum poder coercivo, e que se vêm obrigados a conviver com as outras 108 seitas e suas verdades. Aqui seita não é algo heretico e perigoso, porque não há um padrao que se imponha como verdade da qual dissidir. Ser diferente é algo comum, e as seitas, desde as micros às um pouco maiores sao a própria estrutura organizacional do hinduismo. Acho isso maravilhoso. Na Índia a verdade revela-se numa grande multiplicidade de formas, e é essa variedade que dá todo aquele colorido que me fascina. Não é uma cultura univoca, antes me abre um oceano de alternativas, possibilidades diferenciadas nas quais me posso perder e reencontrar várias vezes, e em ultimo caso, através das quais me posso perder e encontrar a mim mesmo.

No caso do yoga toda essa diversidade revela-se em todo tipo de pormenores. As praticas recomendadas e realizadas sao do mais diverso, alternativo e até e contraditório. As filosofias que envolvem essas praticas também primam por uma riquíssima variedade. Dentro de uma corrente filosofica há sempre várias correntes discordantes, e sobretudo muitas interpretaçoes diferentes, seja dos textos que lhes servem de fonte, seja na forma de ensiná-los, seja na meta que tudo supostamente tem. Os professores que ensinam (os gurus) sao personalidades dos mais diversos. Há do tipo academico e intlectual e também analfabetos. Há os que vivem numa caverna aos que sao epicentro de um ashram, ou até de todo um movimento religioso, social e politico que move milhoes e milhoes. Desde o que fala muito, ao que permanece em silencio absoluto. Os extremamente bem humorados, e os sisudos e rigidos ao tipo militar. Há os humildes, os que se fazem humildes, e os que não sao humildes, ou pelo menos tentam não se mascarar de humildade! O ambiente natural, cultural e social em que tudo se processa também pode ser diversificadissímo. É muito normal um guru defender que o celibato é a melhor opçao para a evoluçao espiritual, e outro prescrever sexo como parte do caminho espiritual. Um vai exortar uma pratica fisica intensissima que o fará suar abundantemente, outro vai defender que isso é himsa (agressao) e antes deveriamos abandonar todas as praticas fisicas, no seu todo, porque elas vao distrair-nos da contemplaçao do espirito que fica para além das formas. Um professor vai dizer-lhe para concentrar-se no corpo, "open eye meditation frist", outro para sentar-se e cruzar as pernas e simplesmente observar a respiraçao por várias horas por dia, outro vai dizer que é melhor fazer auto estudo enquanto trabalhamos, outro dirá que so meditar no nome de Deus produzirá resultados, outro dirá que tudo isso é demasiado complicado e moroso, é melhor fazer meditaçao instantanea, a meditaçao do riso, "lets fake it until we make it", e outro ainda dirá que qualquer tecnica ou esforço de meditaçao é desnecessário e desaconselhavel porque nós já somos a iluminaçao que procuramos. Mesmo dentro de uma mesma escola de yoga é comum vários professores terem divergência de opinioes, seja quanto à interpretaçao e exposiçao de uma filosofia, seja quanto á execuçao ou ensino de uma técnica, seja quanto à relaçao a estabalecer entre professor e aluno, seja quanto a... tudo! Não é por acaso que dois mestres famosos nunca coincidem no mesmo sitio. Se um discipulo, ou co-discipulo, se destaca invariavelmente sai e vai formar a sua escola, o seu grupo, a sua seita, a sua verdade com mais ou menos variantes quanto a meios e fins. E seja lá qual for o ensinamento todos se dizem perfeitamente defendidos por uma imensidao de textos e gurus, sejam antigos ou modernos. E é muito comum cada guru acrescentarem o seu próprio texto à já muito extensa e rica coleçao que substancia os diversos aspectos do yoga e do hinduismo. Uns sao mais originais e acrescentam algo aparentemente novo, ou reformulado. Outros sao mais comedidos e acrescentam apenas a sua interpretaçao. Seja como for, em todos os lados, gurus e principalmente os seus zelosos seguidores assegurarao que o seu é o único, ou pelo menos o melhor, o verdadeiro caminho para Deus, para a iluminaçao, para a paz e felicidade, e tendem a ficar ansiosos e até beligerantes, ou pelo menos sarcásticos, quando se mencionam pontos de vistas divergentes e concorrentes. Mas é mesmo assim, geralmente não passa disso. Se não gosta dirija-se a outro ashram, a outro guru e pronto. Ou funde o seu...

Tudo isto pode parecer loucura, algo tonto e pitoresco, como se fosse uma espiritualidade sem raizes nem rumo, perdida. Para quem vem a procura de respostas rápidas, certas, confiávíes, para quem tem falta de confiança e procura segurança isto pode ser um inferno. Ou uma soluçao fácil. Mas não é, nem uma coisa nem outra. Para mim é precisamente o ponto forte da Índia, do hinduismo e do yoga é haver várias fontes alternativas, e possibilidades para escolher, para exercer a liberdade, para nos podermos enquadrar conforme as nossas diferenças. É como se a Índia, o hinduismo e o yoga fossem um Uni & verso, que contem a totalidade em si mesmo. Tudo já se especulou, experimentou, e continua a especular-se e experimentar-se continuamente, sem limites.

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Vedismo, nacionalismo e tradiçao na Índia

A Índia e o hinduísmo contemporaneo

Os hindus é um nome genérico para todos aqueles que não sao alguma outra coisa. Mas entre si não têm muita coisa em comum. Ou não tinham. Só os Vedas, e mesmo assim com algumas nuances. Até porque a esmagadora maioria dos hindus nunca leu ou se interessou pelos Vedas, nenhum deles, e não faz ideia do que lá se diz. A maioria da religiosidade popular nem sequer e baseada nso Vedas, e sim de tipo puranico. Aliás, durante muito tempo, até os Brahmanes, que supostamente seriam os defensores dos Vedas, o que fizeram foi sequestra-los, impedindo que mais alguém a eles acedesse. E o mais ridiculo é que até esses mesmo brahmanes muitas vezes esqueceram e ignoraram os Vedas! Decoravam-os, parcialmente, consuante a sub casta, mas nao se pode dizer que conhecessem os ditos Vedas. Mas falemos de hindus, e de Índia...

Desde há cerca de 2000 que esses "hindus" não têm tido régio politico sobre o território agora chamado Índia. Esse poder politico tem sido dominado por budistas, muçulmanos (que dominaram grande parte do sub continente durante 7 séculos) e depois por cristaos de varias naçoes europeias. E o principal motivo que leva os ditos hindus (ou seja, as multiplas seitas que de alguma forma tem consideraçao pelos Vedas, e não sao, objectivamente, um ramo de outra religiao) a não terem tido poder politico consistente por tanto tempo é precisamente porque durante muito tempo não tiveram um minimo uniao religiosa, nem social, nem politica, nem linguistica. Esses hindus têm estado divididos por linguas, crenças e praticas religiosas, seitas, castas, costumes e reinos diversos. O maior feito do “hinduísmo” é a sua sobrevivência. E isso deve-se precisamente a essa mesma diversidade, dispersao e plasticidade, que permite que a cultura se adapte, absorva o choque com outras culturas, incorpore algumas das suas características e assim se já regenerando, por entre passos para trás e para a frente, voltando a recriar-se sempre que tenta voltar ás suas supostas origens. Foi assim com o budismo e o jainismo que de certa forma foram tentativas de restauraçao de uma cultura mais antiga sequestrada pelos brahmanes no periodo clássico. Foi assim com o tantrismo e com o advaita vedanta medievais, que procuraram voltar a uma cultura antiga, liberta tanto dos brahmanes como dos budistas, como dos muçulmanos. E esta a ser assim agora, desde o século XIX, quando o hinduísmo absorveu a influência do imperialismo europeu, nomeadamente britanico, e por isso ganhou orgulho nacionalista.

A regeneraçao em curso, que vem desde os finais do século XIX (primeiramente impulsionada por Dayanand, que renegava o politeismo, o puranismo, o shivaismo, o shaktismo, o shikismo, o cristianismo, etc. em favor de um purismo vedico monoteista) tem, ironicamente, uma forte influência (reacçao e integraçao) tanto dos muçulmanos como dos cristaos imperialistas. Essa influência é a ideia fundamental de unidade. Uniao politica: um país, um Estado, e não variados rei, reinos, donos de terras, etc.. Uniao linguistica, através do hindi e sobretudo do inglês. Uniao social, com a dissoluçao do sistema de castas em favor de uma meritocracia do tipo ocidental. Uniao religiosa, através da dissoluçao e integraçao das crenças e praticas diversas das multiplas seitas, através de uma divulgaçao e popularizaçao dos Vedas e do vedismo, a “religiao dos Vedas” (e não dos brahmanes), uma religiao onde também está a ideia de que só há um Deus, sem forma, e que todos os demais deuses sao meros aspectos desse deus único e sua Criaçao. Esta ideia, hoje mais ou menos generalizada entre os hindus, é relativamente recente, é uma ideia propagada desde o século XIX pelos reformadores modernos do hinduísmo, que procuram criar uma uniao em todos os aspectos da Vida dos hindus. Até a forma de cumprimento tipico dos hindus, que variava de seita para seita, tem sido padronizada através do conhecido namaste (ou do concorrente namaskar), que é uma forma de cumprimento moderna, proposta por Dayanand no século XIX. Esta ideia de uniao é em si mesma politica e religiosa, e visa unir politica e culturalmente os multiplos hindus, dar-lhes orgulho e um sentido de pertença, um sentido de pertença comum. Dayanand, o pai reformador do Vedismo e nacionalismo “arya” moderno (ele preferia arya, nobre, do que hindu, já que hindu é uma classificaçao generica e algo depreciativa feita por estrangeiros) criou um slogan para unir e mobilizar os hindus: “uma religiao (e um só Deus), uma linguagem, uma nacionalidade”. Só assim os “hindus” poderiam deixar de ser submissos politicamente na terra onde sao maioria (e que agora dizem ser a "sua" terra), cerca de 2000 anos depois!

A Índia como existe actualmente, essencialmente hindu, é, portanto, uma (re)construçao recente, onde vedismo e nacionalismo se apoiam e reforçao para (re)criar este novo monismo, a Índia. “Um” país, “uma” cultura, “uma” tradiçao.

Falar de “tradiçao hindu” é algo que deve ser feito com muito cuidado, porque o próprio enunciar do termo tradiçao, neste contexto, tende a levar a enganos...
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domingo, 8 de março de 2009

Uma visita as quedas de água e um guru inesperado...


Um dia juntei-me a um grupinho que ia ver umas quedas de água no monte, aqui a uns poucos Km a norte de Rishikesh. Quando o grupo se juntou finalmente eram um brasileiro e uma brasileira que já conhecia, um casal de lituanos, um holandês e uma holandesa (que não se conheciam), duas japoneses e eu. E um indiano. Todos conheciamos alguém do grupo, mas quase ninguém conhecia sequer metade do grupo todo. Coisas de viajantes.

As quedas de água em si não têm nada de especial. Sao agradáveis, dá para tomar um banho, tem boas vistas e e tal mas...

O que gostei foi de conhecer o indiano, que se chama a si mesmo Vince! Quando o conheci estava no seu quarto, no mesmo local que o meu amigo brasileiro. A música berrava Eminem! Apareceu de estilo rapper de praia ocidental. All Star e tudo. Primeira coisa que fez foi puxar um cigarrinho do seu paquete de Marlboro. Começou logo a fazer de guia, com trejeitos de playboy engatatao pelo meio. Creio que terá entre 25 e 30 anos, não estou certo. Passado uns dias ia para Madrid, Espanha. Tem uma namorada lá. O que vai lá fazer? Dar aulas de yoga claro! Nos primeiros 5 minutos já estava quase a declarar-lhe mentalmente nojo perpetuo, porque eu tenho a mente aberta e tolerante, mas não tanto. Também tenho os meus preconceitos e dou-me todo direito a tê-los. Naturalmente procurei outras companhias. Infelizmente as japonesas não sao muitas boas para conversar, porque como de costume não falavam grande coisa de inglês, e já estou a ser simpático, porque elas também eram. Os brasileiros e holandeses sao mais acessiveis.

Entretanto, lá em cima nas cataratas, enquanto o pessoal se banhava (eu não me misturo neste tipo de banhos publicos, especialmente com a água tao gelada! rssrsrrs), estava eu na conversa sobre yogas e tal com o Vicent (o Holandês) e o Vince ( o indiano) juntou-se a nós. Eis que o gajo se começa a chibar. Afinal era um ex adepto da ISKCON (vulgos “Hare Krishna”), que tinha sido criado dentro da seita (seita aqui não tem sentido pejorativo, pois todos os grupos “espirituais” sao mais ou menos pequenas seitas...) desde muito pequeno. Foi literalmente adoptado e criado pelo grupo. Os “Hare krishna”, para quem não sabe, sao um grupo devocional criado por um indiano emigrado nos EUA, e que tem como base a devoçao a Krishna, o estudo da Bagvad-guita, com o intuito de iluminar o mundo através da consciência de krishna, blá blá blá. Sao um grupo relativamente grandito e presentes em todo mundo. Até na Índia estao! Um dos Beatles foi durante bastante tempo devoto deles, ou pelo menos colaborou com eles, inclusive com doaçao de parte do testamento. Eles ficaram muito famosos (má fama, diga-se) pela forma extravagante como se apresentavam publicamente no ocidente (cabelo rapado e roupas laranjas) cantando pelas ruas o seu famoso mantra: “Hare Krishna”. Pessoalmente simpatizo com eles. Sao opimos no mantra, e tem sempre um restaurante vegetariano aberto e barato em quase todas as principais cidades do mundo. E dao um colorido ás nossas cidades. Colorido cultural também, diversidade. Claro que esta é a minha visao, de quem vê de fora, de quem só vê o colorido e saboreia a culinária sem compromissos. Assim todos estes pequenos grupos “espirituais” de inspiraçao hindu que abundam tanto no oriente como no ocidente sao bastante divertidos.

Quem pertence aos grupos, os adeptos profissionais, os que vivem para esses grupos e os sustêm, acabam por ter sempre outra visao. Porque o grupo (os “espirituais” como qualquer outro tipo) dá, mas também pede. E em geral pede primeiro, e pede mais do que dá. Em geral é preciso ficar bastante tempo e jogar bem dentro dos grupos (mais que competencia é a lealdade canina e a habilidade nas Relaçoes Publicas que conta) para que o saldo comece a reverter. E para a maioria a compensaçao é simplesmente o orgulho e satisfaçao de pertencer e contribuir para a “obra”. E é de obrar que se trata. Essencialmente suster o grupo envolve trabalho, bastante trabalho. Envolve sentido missionário, compromisso, fidelidade, lealdade, idealismo, conviçao, fé, disciplina, entrega, renuncia, etc. Envolve questoes hierarquicas, com os seus abusos e desvios écticos tipicos. Envolve dinheiro. Tende a envolver amizades e amores, e inimizades e desamores. Envolve TUDO. Envolve tudo isso misturado. Ou seja, tende a ser... absolutista, complicado e pesado. E muitas vezes uma pessoa vê-se embrulhada no meio de tanta hipocrisia, politiquice e problemáticas das mais profanas e corriqueiras que chega um momento em que se pergunta: o que raios faço aqui?! Passado um tempo, de questionamento e duvidas, muitas vezes a resposta a si mesmo é negativa: não acredito nisto; não quero isto; perco o meu precioso tempo. Muitos sentem-se enganados, traidos. E isso gera revolta. E voltam-se contra aquilo que antes tanto amaram e apoiaram. Há uma especie de periodo de nojo, em que se renega tudo, uma especie de vómito de algo estragado e ou mal digerido. As vezes esse vómito deixa uma azia continua, para o resto da vida, como um veneno que ainda está lá.Enfim, como em todas a organizaçoes, há os satisfeitos, mais ou menso satisfeitos, pro mais ou menos tempo, e há os outros. Neste caso, das organizaçoes "espirituais", como envolve um grau elevado de idealismo, em geral tudo se mantém mas sou menso bem se a pessoas ACREDITA. E se as contas sao pagas, claro...

Voltando ao assunto, o Vince, foi precisamente isso que se passou com este micro heroí desta micro história. Ele deixou de acreditar e está em periodo de nojo em relaçao à ISKCON. O fumar entra aí. Não consegue admitir comer carne de vaca (“the cow is my mother”), ainda tem bem presente os ensinamentos mais ou menos tradicionais que lhe inculcaram desde pequeno na seita, está consciente que como professor de yoga está em prevaricaçao (ou seja, vai ensinar o que não faz, como por exemplo não fumar, etc), mas não está muito preocupado. Assume as suas contradiçoes e hipocrisias. Até declara abertamente que só vai dar classes de yoga em Espanha para ganhar dinheiro, o que me fez perceber que não conhece bem a mentalidade dos ocidentais e espanhóies, que não estao preparados para tanto sentido pratico nestas questoes. Mas a mim esta atitude caiu-me muiiittto bem. Afinal, conheço muitos professores de yoga que também não não fazem o que ensinam, mas não têm coragem de admitir, alguns nem para si mesmos. Conheço tantos yogins que andam por aí a querer guiar os demais apesar de estarem tao perfeitamente perdidos como os que pretendem guiar. Pelo menos o Vince esta a começar bem, com Satya, com Verdade para consigo mesmo. E isso é a base de tudo. Actualmente a sua filosofia de Vida é mais ou menos esta: no gurus, no organizations. Just listen to your self, known yourself, trust yourself, make your one decisiones, be your self, right here right now. Your are responsable for your karma anyway... Embora eu não esteja a passar por nenhum periodo de nojo, pois o meu relacionamento com gurus e organizaçoes “espirituais” tem sido em geral positivo, acho que compreendi bastante bem o Vince, porque em parte me identifico. O que ele estava a dizer pareceu-me menos pretensioso, mais corajoso, verdadeiro, realista e importante do que mil e um discursos idealistas, alienados e até surreais que eu tenho ouvido de mil e um gurus um pouco por todo lado. É caso para dizer que afinal aprendeu alguma coisa com o seu ex grupo. Para quem quer aprender, até um pouco de veneno serve...



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terça-feira, 3 de março de 2009

Dia a dia em Rishikesh


O primeiro curso de Vedanta acabou há precisamente uma semana, no outro Domingo. E para o próximo faltam quase duas semanas. Inicialmente tinha previsto aproveitar este descanso de 3 semanas para viajar mais aqui na Índia, a algum sitio no Himalayas, ou lá perto. Tinha pensado em ir a Dharmashala, onde vivem os tibetanos refugiados do Tibete, nomeadamente o Dalai Lama, que fica ainda mais a norte, não muito longe daqui, faz-se a viagem em menos de um dia. Mas entretanto apeteceu-me mais ficar por aqui mesmo, a praticar, a estudar, estável, que está-me a saber bem. A Índia é muito grande. Tem quase tanta coisa para ver como a Europa inteira, é um sub-continente. Por isso não daria nunca para ver tudo. Prefiro ver agora um pouco e assentar a aprender algo a sério aqui. Outra vez verei um pouco mais.

Está-se particularmente bem aqui em Rishikesh, que é pequeno e bastante ao norte. Está a aquecer, mas está seco, o que ajuda. Não vale a pena trazer casacos para cá. Basta uma camisola mais quente, para a madrugada ou alguma noite mais ventosa. Está parecido ao Verao português. Só que o Verao a sério aqui é muito mais quente, e ao mesmo tempo chove. Chove muito, é a epoca das chuvas. Não quero cá vir me Maio ou Junho. Além do calor intenso tornar tudo mais desconfortável, dizem que, junto com a humidade, cria um ambiente propicio a criar todo tipo de virus e bactérias, e por isso também aumenta o perigo de contrair doenças variadas... Como sou calorento já estou a achar quente demais, mas ainda está bastante confortável. Dá até para tomar uns banhos nas praias do Ganga, o que os hindus consideram bastante auspicioso. Só que a água é gelada, não é muito limpa, e ainda por cima não é muito comum ver gente despida nas ruas, mesmo homens, embora homens em tronco nu a tomar banho no rio não seja mal visto. Mas ainda não me estreiei. Amanha vou a umas cachoeiras uns Km rio acima e talvez me aventure por lá...

Entretanto tenho praticado muito. Duas vezes por dia. Uma vez faço eu mesmo a minha pratica, outra vou a algum lado fazer com algum professor. Tenho feito umas praticas bastante intensas e começo a sentir o meu corpo a ganhar vida outra vez. Ás vezes também fico bastante cansado. 3 horas por dia de pratica, em média, mais quase outras tantas a caminhar, cansa. Quando não pratico passeio, vou visitar outro ashram, ou algum tempo, ou leio, ou fico na conversa com alguém. De qualquer forma aqui não acontece absolutamente nada depois das 10 da noite. Aliás, é bastante normal já estar tudo nos quartos, e talvez a dormir, por essa hora. E não há TV! Por isso também se acorda cedo. Ás 4horas da manha (!!!) o ashram ao lado toca para acordar para o primeiro pujá do dia, ás 4h30! Neste ashram o primeiro é as 5h. Não dá para não acordar. Eu tento voltar a dormir e volto a acordar por volta das 6.30, 7...

Aqui no ashram está tudo calmo. A maioria dos cerca das 250 pessoas que estiveram no primeiro curso foi-se embora, a fazer as suas vidas. Outros foram viajar. E outros, como eu, cá estao, a espera do curso seguinte, ainda a praticar e estudar, mas num ritmo mais tranquilo e autonomo.

Descobri que a comida no ashram, quando não está a haver nenhum curso e há menos gente, passa de ser monotona a ser...sempre igual! Já não tomo o pequeno almoço aqui há mais de uma semana. Prefiro comprar sumos e fruta e comê-lo no quarto. No refeitório não servem fruta nehuma, pois é (mais) cara. Só arroz, um guisado à base de batata com lentilhas ou ervilhas, chapata (pao espalmado tipo panqueca) e um caldo picante. Todos os dias. Entre refeiçoes há chai (chá indiano, ou seja, chá com leite). De vez em quando almoço ou janto fora. Por dois euros aqui come-se muito bem num dos muitos restaurantes dirigidos a turistas. Entretanto está a ocorrer um curso de yoga de 2 semanas aqui no ashram, pago e bem pago (cerca de 1500 euros por 2 semanas) no qual estao presentes uns 40 ou 50 europeus, americanos e asiáticos. Embora seja no ashram não é bem uma actividade do ashram, é apenas um curso nas instalaçoes do ashram no qual algum swami dá uma aulita de sanscrito e vedanta. Já tinha reparado que num curso de yoga que houve antes do meu primeiro curso de vedanta que para os praticantes estrangeiros de Hatha yoga (leia-se “yoga essencialmente á base de técnicas corporais”) eles até separam e diferencias as refeiçoes, com o cardápio a ser mais diversificado, rico e nutritivo. Realmente só mesmo um monje renunciante é que é capaz de achar satisfatório viver com aquela raçao diária tao monotona, com tanto hidrato de carbono e com pouco de tudo o resto. Ou entao sou eu que estou mal habituado. Ou bem...

Por cá está tudo bem. Óptimo mesmo. Ás vezes fico com saudades, mas em breve já estou aí outra vez. Ainda mal passou um mês desde que cheguei e parece muito, muito mais.

A minha mae mandou-me uma frase do Miguel Torga bem bonita: “
«transpor as fronteiras uma a uma é morrer sem nenhuma»”. Viajar é bom.
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Templo a Nihilkanta – o Shiva “garganta azul”, e um fetiche ecologico


Aproveitando a ida de um grupo de brasileiros que conheci ao dito templo, tomei boleia. Boleia a...pé! 8 Km a maior parte a subir a montanha ingreme até descer um pouco já do outro lado e finalmente encontrar o templo, numa pequena vilória de montanha. O templo é dedicado a Nihilkanta – o Shiva “garganta azul”. Quem quiser saber mais pode consultar a net (wikipedia) e lá lerá tudo e mais alguma coisa sobre os mitos referentes a este aspecto de Shiva.

Nós fomos a pé, mas dava para ir de carro ou mota, por trás, contornando a montanha. Mas assim é mais bonito, e pode-se contemplar o rio e Rishikesh toda de cima. Mas sao cerca de 4 horas, sempre a subir! E nós, por ideia do guia dos brasileiros, pusemos em pratica a brilhante ideia de fazer um pouco de limpeza na montanha. Levamos sacos grandes e enchemo-los de plásticos que encontramos pelo caminho. Escusado está de dizer que não limpamos nem 1% do lixo que havia no caminho, que é muuuiitttooo, como em todas as partes da Índia. Mas nao deixa de ser uma acçao bonita, conscienciosa. E cansativa, muito cansativa. O pior era quando passavamos pelos indianos que nos olhavam pasmados. Não entendiam. Nem mesmo quando perguntavam e explicavamos que estavamos a limpar a montanha. Não entendiam. Está fora do alcance deles. Aqui não há caixotes de lixo, manda-se tudo para o chao. Mesmo que a montanha, ribeiro ou rio sejam sagrados. Aliás, parece-me que o raciocinio deles é ao contrário: se é sagrado façamos o que façamos não podemos nunca sujar, porque é em si mesmo puro. E portanto mandam lixo para o lado, para o chao, para o ribeiro que passa, mesmo que seja o mesmo ribeiro onde vao buscar agua para fazer o chá e cozinhar!

O mais ridiculo é que alguns burocratas lembraram-se de considerar esta parte da montanha e sua floresta uma reserva protegida. Logo expulsaram os poucos sadhus (os renunciantes, yogis) que ali viviam em grutas, em alguns casos há décadas, numa tradiçao que terá talvez milénios. Mas não podia ser... No entanto permitem barraquinhas de comes e bebes monte acima, para vender coisas aos peregrinos. E essas barraquinhas sao nojentas e contribuem para sujar mais toda a area. Enfim, coisas que nem os deuses indianos podem explicar e resolver. Se é que há alguma coisa a ser percebida e resolvida! É o que é.


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O Sadhu que viveu 40 anos numa gruta!

Na Índia os gurus (professores e ou mestres) tendem a ser reverenciados. Boa parte dos gurus sao swamis, monges renunciantes, que só por sê-lo tendem a ser considerados homens santos, a quem se respeita, porque sao homens que deixaram tudo o demais para se dedicarem apenas e só a buscar o conhecimento de si mesmos. Destes, alguns swamis, sadhus, sao considerados iluminados. Não há nenhum medidor de iluminaçao objectivo. Como é obvio é tudo bastante subjectivo. Mas alguns destacam-se, ganham fama, sao procurados para ensinarem, aconselharem, etc. O mais comum é que sejam cumprimentados com uma reverencia que consiste em ajoelhar-se, tocar os pés, eventualmente até beijá-los, e cumprimentar com as maos juntas a frente do peito com um namaskara (saudaçao, tipo “bom dia”, ou “bom dia excelentissimo guru”, algo do genero...), mostrando admiraçao, respeito, carinho, submisao, humildade, etc. Para um indiano isso é muito natural. Tao natural que fazem-no com a facilidade com que nós damos um aperto de mao. Mas para ocidental fica menos natural. Especialmente em tempos em que se valoriza tanto o individualismo, o orgulho, a vaidade, o ego. Para mim não é natural e por isso não ccumprimento assim ninguém. Mas na passada terça feira fui com um grupo que conheci conhecer um sadhu que viveu 40 anos numa gruta da montanha aqui em torno ao Ganga em Rishikesh. 40 anos numa gruta!!! O velhinho é magrote, tem cara humilde e ainda por cima estava preso a uma cadeira com uma perna partida. Não tem nenhum ashram, nem estrutura, nem gente a segui-lo e apoiá-lo. De repente, a este tipo até pareceu normal fazer o tradicional cumprimento de tocar os pés...

Chegamos e sentamo-nos a volta dele. Ele estava pronto a responder a qualquer coisa que lhe pedissemos. E o primeiro que quisemos saber foi a história dele...Depois de atender o telemóvel lá nos começou a contar e responder. Sim os sadhus, supostamente renunciaram ao mundo mas a maioria tem telemóvel! Adiante...

Lá ficamos a saber como desde pequeno teve inquietaçoes religiosas, filosóficas, espirituais. A certa altura decidiu abandonar tudo para procurar as respostas ás questoes existenciais que tanto o perseguiam. Essa busca trouxe-o a Rishikesh. Aqui acabou por encontrar um guru que vivia numa montanha e que acabou por se tornar o seu guru. E lá ficou a viver, na mesma gruta. 40 anos! Chegou por volta de 1960, quando Rishikesh já era relativamente famosa pelos yogis e sadhus que a frequentavam e que por aqui viviam. Mas em 1960 ainda quase não havia estradas, nem pontes, nem ashrams. Turistas e mesmo peregrinos indianos eram pouquissímos. Logo não havia hoteis, lojas, etc. Isso só começou 10 e 20 anos depois. Os poucos sadhus e yogis que cá viviam em geral acolhiam-se em grutas ou kutirs (tipo palhotas), ou ao pé do rio, ou algures mais acima já na floresta da montanha. Ainda havia tigres nessa florestas, e ás vezes apareciam no rio para beber agua... Imagine-se o cenário! Entretanto o mundo mudou. Rishikesh mudou. Há várias pontes e barragens norte e sul de Rishikesh. E, absurdo, algum burocráta resolveu declarar que a floresta à volta de Rishikesh, nas montanhas que a cercam, deveria ser declarada reserva protegida. Até aí tudo bem, pois essa floresta está mesmo a desaparecer, e a ser invadida por construçoes ilegais e lixo de vendedores ambulates, etc. Mas alguém tem feito alguma coisa para limpar a montanha, ou pelo menos impedir que fique mais suja? Não. Mas tiveram abrilhante ideia de expulsar todos os sadhus que ali viviam! Em alguns casos viviam ali há decadas. Em alguns casos em grutas habitadas por yogis há séculos! Que grande mal é que estes yogis faziam a montanha? Nenhum. Mas foram expulsos. Um deles foi este velhinho que fomos conhecer. Por sorte dele um hotel junto ao rio acolheu-o. Ele vive lá. E é lá que recebe as suas visitas, de yogis e ou turistas como eu que lá vao para perguntar-lhe coisas sobre o yôga, ou sobre a Vida, sobre Deus ou sobre qualquer coisa. E foi o que o nosso grupo fez. E, claro, no fim deixamos o dakshina (básicamente, o pagamento).

Aqui deixo algumas frases que escutei e gravei...

(atençao que o contexto cultural é outro, e por isso as mesmas palavras não têm necessáriamente o mesmo significado)

Palavras de Swami Shankar Das, um yogi que viveu 40 anos numa gruta!

“Deus é como um espelho: quando nos colocamos diante de Deus vêmo-nos a nós mesmos!”

“Deus conhece todos os nossos pensamentos, e todas as linguagens, e todas sao dispensáveis para comunicar com Deus. Qualquer comunicaçao é entendida por Deus, porque é sempre Deus a falar consigo mesmo.”

“Antes (de ser iluminado) via Deus fora de mim, fora das pessoas. Agora vejo Deus em todas as pessoas. Tudo e todos estao conectados.”

“Yoga é aquele que é capaz de juntar aquilo que parece separado.”

“Yoga significa que ambos somos o mesmo.”

“Ás vezes o yogin vai praticar mas com a motivaçao errada. Quer alcançar um corpo muito bom, ficar cheio de energia, mais concentrado e inteligente, etc. Ás vezes obtém tudo isso. Ou pelo menos convence-se disso. Mas como isso vem do ego e é para o ego, como a atitude é o égoísmo, o yogin não obtém exito (iluminaçao).”

P: É fácil estar estável e "bem" aqui, em Rishikesh, de férias, a praticar yoga, sem pressoes. Mas e como manter este estado numa grande cidade, sob o stress do trabalho, com a poluiçao, etc? "R: Vai para onde for necessário, pratica yoga, estuda e ilumina-se. Entao nao importa onde se vive..."

P: Para quê continuar, qual a sua motivaçao de viver se já encontro Deus que era a meta que tinha na Vida? R: “Ainda tenho desejos. Tenho o desejo de viver mais anos.”

“ Quando o yogi pensa que já se iluminou e não precisa de mais ninguém, que não precisa de mais gurus, que não precisa aprender mais, entao pára. Pára de conhecer. Mas o yoga nunca acaba, nunca deixamos de aprender, mesmo “iluminados””.

“A vida pode ser dificil para quem não a entende, mas é divertida se a conhecemos. É como um drama, um teatro, um filme. E é bom ter papel nesse teatro, mesmo que pequeno.”

Não é preciso ir viver para uma gruta para chegar a esta filosofia de Vida, mas para ele funcionou...







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Festividades: Shivaratri

Ontem à tarde participei de uma celebração muito especial aqui em no templo do ashram em Rishikesh. Foi a celebração do MahaShivaratri, uma das principais datas religiosas para os hindus. Neste caso numa segunda feira, pela primeira vez em muitos anos. A segunda-feira é dedicada à lua, e por essa razão é o dia que se relaciona ao deus Shiva. A data foi considerada pelos indianos como especialmente auspiciosa. Desde as 4.30 da manha que havia devotos (e curiosos como eu) a manter o mantra principal: “Om namah shivaya”. Mais tarde seguiu-se o ritual própriamente dito com muitos cantos védicos e o puja do lingam com leite de coco, frutas, etc, na camara interna do templo. Nas ruas via-se mais gente que de costume. Especialmente mais indianos. Muita gente tomou banho no Ganga, alguns logo as 4.30 da manha, uma hora considerada especialmente propicia, pois é a hora do Brahmamurti, onde tudo é mais sereno. Embora seja uma festividade marcadamente religiosa, para alguém como eu que procura conhecer mais da cultura hindu e do ambiente em que essa cultura acontece, foi um momento especial. Até proque estes rituais, embora longos, tendem a ser bastante animados devido aos mantras. Até o Swami Dayananda participou alegremente, fosse puxando os mantras, fosse tocando o seu tamborzinho... Isso tudo pelo meio de entrevista para a TV, entrevistas pessoais a devotos, discipulos e alunos que o requisitavam, etc.

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